Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Lusofonia - Com a mobilidade é mais fácil fazer negócio na CPLP

A revista Capital foi tentar saber junto de Salimo Abdula, presidente da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP), qual é o maior desafio da organização que representa face ao objectivo de atingir um bom ambiente de negócios na CPLP, e aquele dirigente referiu que a maior luta, até ao momento, tem sido criar condições de livre circulação de pessoas, bens e mercadorias na CPLP e a redução da corrupção, da burocracia e das barreiras administrativas e legais que têm atrasado o desenvolvimento

A mobilidade e a circulação de pessoas e bens é um dos pontos focais para a recém presidência da CPLP. No seu entender, em que medida essa nova forma de administração da CPLP poderá melhorar o actual panorama económico entre os estados-membros em particular e a da comunidade no geral?

Para a CE-CPLP, o caminho do desenvolvimento económico da CPLP para além da superação das barreiras legais e administrativas, são sinergias. Os PALOP, por exemplo, têm recursos (água, e terra, minérios, etc.), têm mão de obra abundante e países como o Brasil e Portugal têm ‘know how’ e maior capacidade para investir. Então, há que unir o útil ao agradável. E para que seja possível aprimorar as sinergias, precisamos de rapidez, flexibilidade e dinamismo e isso será possível através da mobilidade de pessoas e bens.

Acha que a mobilidade de pessoas e bens irá dinamizar as relações entre as associações económicas e empresariais da CPLP bem como entre as empresas?

Sem dúvida. A mobilidade permite acelerar a integração de processos, maior rapidez e dinamismo nas transacções entre os estados membros, bem como incrementar o ‘know-how’ e aproveitamento de recursos humanos. Com a mobilidade será mais fácil fazer negócio entre os países membros.

A nova presidência da CPLP dará ênfase à economia azul, a resolução da problemática dos oceanos, ou seja, as políticas de desenvolvimento sustentável estarão em alta. Que ganhos poderão advir destas políticas?

O desenvolvimento sustentável é condição basilar para o crescimento e a sustentabilidade de qualquer recurso, seja do mar, da terra, ou outro. Desenvolvimento sustentável é garantir o futuro, na medida em que permite que as gerações vindouras usufruam dos recursos hoje existentes. Portanto, esta postura de ênfase na economia azul e desenvolvimento sustentável trará benefícios a nível económico e social. O papel dos Estados será garantir as infraestruturas e a fiscalização adequada, os empresários deverão investir, e naturalmente, daqui teremos mais ganhos a nível da renda, emprego e qualidade de vida das pessoas.

Qual é a avaliação que faz do ambiente de negócios que poderá surgir com a presidência cabo-verdiana?

Avaliação Positiva. Contudo, penso que não é uma questão de uma ou outra presidência, mas sim de um trabalho continuado e integrado das várias presidências da CPLP. Estou seguro que assim como Timor-Leste, e recentemente o Brasil o fez, Cabo-Verde vai dar excelente continuidade à ideia que os estados têm de tornar a CPLP cada vez mais económica. Ao pretender se focar na mobilidade e no desenvolvimento sustentável, esta presidência vai naturalmente assumir particular protagonismo se os resultados forem os que esperamos. Mas, repito, este trabalho não poderá parar por aqui, será necessário a continuidade nas próximas presidências. Só assim teremos um ambiente de negócios saudável.

O sector privado da CPLP desempenha um papel inestimável no crescimento económico e empresarial do espaço lusófono. Actualmente, quais são os maiores desafios deste sector?

O nosso maior desafio, e que tem sido a nossa luta até aqui, é criar condições de livre circulação de pessoas, bens e mercadorias na CPLP, a redução da corrupção, da burocracia e das barreiras administrativas e legais que têm atrasado o nosso desenvolvimento. Um bom ambiente de negócios na CPLP só poderá ser criado e fortalecido desta forma, uma vez que nos permitirá fazer o casamento entre oportunidades, ‘know-how’, e demais capacidades que cada um dos nossos países possui, promovendo gradualmente a integração económica da comunidade.

O Direito Fiscal é uma das questões mais importantes na economia dos estados-membros da CPLP. A dupla tributação em matéria de Impostos Sobre o Rendimento é um ponto muito delicado. A Convenção Multilateral entre os estados-membros veio para resolvê-lo. Quais são as vantagens deste Acordo?

Este acordo permitirá evitar a dupla tributação em matéria de Impostos sobre o Rendimento e, ao mesmo tempo, atenuar as oportunidades para a criação de fenómenos de dupla não-tributação e evasão fiscal.

Na última conferência das Confederações Económicas da CPLP, que se realizou em Maputo, foi abordada a pertinência de se criar um Banco da CPLP. De que modo tal será possível e em que estágio se encontra esse projecto? Quais serão as vantagens associadas a uma instituição financeira dessa natureza?

Este projecto só será possível reunindo o consenso dos países membros e quando todos assumirem a necessidade da sua existência. Um banco desta natureza deverá ter um modelo de gestão de participativo por parte dos países membros com igual proporção de votos na assembleia geral e um conselho de administração e direção executiva que paute pela equidade. Neste momento, o projecto precisa de ser consolidado junto dos estados, para poder avançar. Há muitas vantagens associadas, entre as quais podemos destacar o contributo para o estabelecimento de parcerias de negócio, investimento e financiamento numa lógica inclusiva, de equidade e reciprocidade, envolvendo agentes económicos de cada um dos Estados. Podemos ainda referir enquanto vantagens:favorecer a dinâmica de investimento em áreas críticas de desenvolvimento;conferir escala e melhor percepção de risco no acesso aos mercados financeiros; reforçar o escrutínio, independência e credibilização das propostas de financiamentoe promover a valorização e intercâmbio entre instituições dos diferentes Estados. Helga Nunes e Mateus Fotine – Moçambique in “Revista Capital” com “Olá Moçambique”

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

CE-CPLP – Cooperação Institucional com o Sport Lisboa e Benfica






Na passada terça-feira, 13 de Outubro de 2015, foi assinado um Protocolo de Cooperação Institucional entre a Confederação Empresarial da CPLP, representada pelo seu presidente Salimo Abdula e o Sport Lisboa e Benfica, representado por Luís Filipe Vieira presidente do clube.

Com esta ligação, a CPLP espera receber o “know-how” que o Benfica tem em desporto, particularmente no Futebol Formação. “O Benfica vai transpor os conhecimentos técnicos para a comunidade CPLP, criando academias e escolas de Futebol que visam formar jovens”, disse Salimo Abdula, presidente da Confederação Empresarial da CPLP.

Já Agostinho Vuma, vice-presidente da confederação das associações económicas de Moçambique, regozijou-se com a assinatura do memorando que permitirá “massificar o número de academias” no país.

O vice-presidente da Associação Industrial de Angola, Eliseu Gaspar, assumiu que o país “tem muitos Benfiquistas”, acreditando que “este protocolo de cooperação será uma grande mais-valia de forma a potenciar as infraestruturas existentes no país”.

Mário Costa, presidente da União de Exportadores da CPLP, pretende que este protocolo abra “as portas do mundo da CPLP ao Benfica, potenciando a marca em termos desportivos, comerciais e de Marketing”.

Do lado do Benfica, Nuno Gomes admitiu ser “um orgulho tornar-se parceiro da Confederação Empresarial da CPLP”. “Pretendemos chegar a mais pessoas, angariar mais Sócios e ter a hipótese de implantar um projeto pensado como são as escolas de Futebol com a marca Benfica”, reconheceu o assessor do Clube para a área internacional. CE-CPLP / UE-CPLP



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Internacional – Parceria Europa e África, longe da sustentabilidade

O Presidente da Confederação Económica da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP), Salimo Abdula, considerou haver um longo percurso para se falar de parceria e sustentabilidade nas relações de negócios entre a Europa e África.

Salimo Abdula, que falava recentemente em Milão, Itália, durante a Expo, afirmou que para que a parceria seja efectiva é necessário, primeiro, “uma mudança de mentalidade”.

“Nas relações Europa/África predomina ainda a mentalidade de doador e beneficiário. Aos africanos em particular, urge a necessidade de mudar a mentalidade e abdicar da mão estendida, por um lado e, por outro, adoptarem cada vez melhores práticas de cooperação”, disse.

Salimo Abdula, que é igualmente presidente do conselho administrativo da Intelec Holdings e accionista da Vodacom Moçambique, frisou que a Europa tem conhecimento, tecnologia e capacidade, enquanto que África tem recursos naturais e gente.

“Há que procurar as complementaridades e avançar. O mundo está a mudar, temos um mercado global cada vez mais aberto e a olhar para África como terra de oportunidades, daí a necessidade de assumirmos esta relação como parceria e evitar a desconfiança”, afirmou.

No evento em que participaram empresários que representam a Itália no Mundo e que estão interessados em consolidar uma presença forte e estável nas economias emergentes, bem como uma delegação de dez empresas portuguesas pertencentes à UE-CPLP (União dos Exportadores da CPLP), personalidades do mundo empresarial e autoridades diplomáticas da CPLP em Itália, Salimo Abdula falou da importância de África no mercado mundial.

“Outros investidores começam a estar mais atentos e se aproveitam das oportunidades deixadas pelos que ainda vêm como desconfiança a relação entre a Europa e África”, disse.

Durante o evento, Simone Santi, presidente do conselho administrativo do grupo Leonardo, recebeu o título de delegado oficial da CE-CPLP na Itália, tomando em consideração que o mesmo “desde sempre investiu e acreditou no potencial das relações de negócios na Comunidade de Países de Língua Portuguesa. In “Jornal de Notícias” - Moçambique

sábado, 29 de agosto de 2015

Brasil - CPLP: mais intercâmbio

Adelto Gonçalves
Em recente entrevista ao Diário de Notícias, de Lisboa, Salimo Abdula, presidente da Comunidade Empresarial da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP), queixou-se de certo desinteresse do governo Dilma Rousseff pela entidade, ao contrário do que teria ocorrido à época do governo Lula da Silva. Para Abdula, como a presidente brasileira vive hoje um momento diferente do vivido por seu antecessor, a CPLP, se não deixou de ser considerada prioridade, pelo menos é vista como meta menos importante na política externa de seu governo.

Para que essa impressão seja superada, o empresário sugere, entre outras medidas, que, de fato, a CPLP se torne uma área de livre circulação de pessoas, bens e capitais, o que estimularia também o setor informal: hoje não são poucas, por exemplo, as mulheres moçambicanas que, mesmo com dificuldade com a língua, viajam para fazer compras em Dubai, África do Sul e Malásia, a exemplo das caboverdianas que costumam ir a Fortaleza. Se não houvesse ainda tantas exigências com vistos e atestados, viriam ao Brasil ou iriam a Portugal para fazer este intercâmbio. Igualmente as empresas formais poderiam se valer da língua comum para aumentar seus negócios. Abdula lembra que o idioma no impacto de uma empresa tem um custo de 17%.

De fato, os números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram que Salimo Abdula está coberto de razão, pois se tem registrado um flagrante decréscimo nas trocas comerciais entre o Brasil e os demais membros da CPLP (Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste). O ano de 2008 foi aquele em que houve maior intercâmbio entre o Brasil e os demais sócios da CPLP (as exportações chegaram a US$ 3,7 bilhões e as importações a US$ 2,8 bilhões). Em 2014, as exportações foram de US$ 2,4 bilhões e as importações, US$ 2,2 bilhões.

De janeiro a julho deste ano de 2015, houve uma queda de 42% na corrente de comércio em comparação com idêntico período de 2014 (US$ 1,5 bilhão contra US$ 2,6 bilhões). No período, o Brasil exportou US$ 968 milhões e importou US$ 548 milhões, registrando um saldo de US$ 420 milhões. Soja e petróleo representaram cada um mais de 14% das exportações do Brasil até julho. Açúcar, carne e tratores foram outros produtos que se destacaram. Já as importações oriundas da CPLP foram lideradas por gás natural liquefeito e azeite (17%). Peças para aviões, bacalhau, peras, produtos petroquímicos e sulfetos de minério de cobre apareceram em destaque.

A prova de que a África e o Timor-Leste não estão entre as prioridades é que Portugal, no âmbito da CPLP, continua a ser o maior parceiro comercial do Brasil. Nos primeiros sete meses do ano, o Brasil exportou para Portugal US$ 539 milhões e importou US$ 519 milhões. Para a CPLP como um todo, o Brasil exportou, no mesmo período, US$ 968 milhões e importou US$ 548 milhões. Ou seja, quase 70% de todo o comércio no espaço lusófono o Brasil faz com Portugal. Adelto Gonçalves – Brasil


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Adelto Gonçalves, jornalista especializado em comércio exterior, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


Poderá aceder à entrevista de Salimo Abdula aqui.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

CE-CPLP - Entrevista do Presidente, Salimo Abdula, ao Diário de Notícias

Foto: Orlando Almeida
O basquetebol era o seu sonho, mas o destino, acredita Salimo Abdula, 50 anos, tinha outros planos. Nascido muçulmano, numa família humilde (a mãe trabalhava em casa, o pai numa açucareira) e com sete irmãos, conquistou um lugar na universidade. Até o conseguir, foi várias vezes de Quelimane a Maputo, à boleia. Plantou-se à porta do ministério. E conquistou o lugar no primeiro curso administrado pela Universidade Eduardo Mondlane. A sua primeira empresa era um buraco: comprou-a por 400 meticais (cerca de 100 dólares na altura e descobriu que tinha dívidas de quatro mil milhões de meticais. Aos poucos deu-lhe a volta. Depois, foi sempre a crescer, no mundo dos negócios e em visibilidade. E acabou por ser convidado para integrar o Parlamento, onde não quis ficar mais de um mandato. Centrista, é amigo de Armando Guebuza, que foi seu sócio nas empresas. Hoje, com 26 anos de experiência empresarial, acumula a liderança da Comunidade Empresarial da CPLP com a presidência da sua holding Intelect (Energia, Publicidade, Turismo, Finanças, Recursos Minerais, Telecomunicações, Imobiliária e Consultoria), é presidente da mesa da assembleia geral da Confederação das Associações Económicas de Moçambique e CEO da Vodacom. Casou com uma católica, no ano em que comprou a primeira empresa,1990, e tem três filhos. “Nenhum quis ser basquetebolista: dois estão no futebol – um está cá, a treinar pelo Benfica na EliteTraining – e um no desporto motorizado.” Quanto a Salimo, benfiquista convicto, continua a preferir o basquetebol. “Ainda jogo, desafios de veteranos, às quartas e aos domingos. Com grandes craques, um deles foi jogador na seleção portuguesa, o João Domingos e o ‘Bebé’ Serrano, o David Simango…” Também ele foi craque. “Campeão nacional em 1983!” Mas é nos negócios que faz a sua vida.

Como é que se passa de empregado de mesa num restaurante para ser um dos homens mais influentes de África, de acordo com a revista Forbes? Qual é o segredo?

O segredo não sei. A vida foi-me proporcionando algumas surpresas e eu quero acreditar que é o destino. Lembro-me de quando se deu a independência nacional, tinha mais ou menos 12 anos…

Que imagem é que tinha dos portugueses nessa altura?

Tinha uma imagem boa. Porque, de facto, o país era tranquilo, na minha pequenez. Não vivia os problemas de que se falava em termos do regime colonial. Cresci na zona rural, onde os meus pais eram empregados – o meu pai; a minha mãe doméstica - e vim para a cidade de Quelimane, que era capital dessa província da Zambézia. Vinha estudar, assim como os meus irmãos, em casa de um senhor que era já muito conhecido em Moçambique dono de uma cadeia de cinemas. E tenho esta recordação de uma vida muito estável, muito boa, havia tudo.

Os seus pais eram politizados?  

Não, nunca foram. O meu pai trabalhava para uma companhia, a Sena Sugar Estates. Lembro-me de um dia na vila de Luabo, eu estava a brincar e vi um clube muito bonito, e entrei a correr – era um menino de 6,7 anos – e veio o contínuo a correr atrás de mim: “Tem de sair daqui, menino!” Eu não sabia que era o clube dos ingleses. Naquele tempo, em vez de se distinguir, dizia-se: “É o clube dos brancos. Tu não podes entrar lá.” Tenho esta imagem negativa. De resto, o standard de vida era bom.

Mas voltando à questão, como é que se passa dessa dimensão para um dos mais influentes de África?

É dos ganhos da independência. Fui esta vítima do sucesso. Porque a liberdade criou também estas condições. Naquela altura, a maioria dos moçambicanos eram preparados para servir o sistema, para trabalhar. E a independência criou liberdade. Criou problemas, sim, porque as pessoas tinham de lutar por si, mas criou outras oportunidades para quem se dedicasse com toda a sua energia a querer ser um empresário. Tivemos um período de economia centralizada que não criou condições para as pessoas pudessem ser empresárias. Eu joguei basquete e era a minha perdição – queria ser um jogador da NBA. Infelizmente a vida não me proporcionou que chegasse a esse nível, porque também não cresci muito…(risos)

Foi para os negócios.

Quando terminei os estudos na Beira, ali naquele período do marxismo-leninismo, eles é que determinavam para onde eu ia. E colocaram-me na Direção Provincial do Comércio Externo. Mas eu tinha a minha ambição de querer continuar a estudar. Mas isso era decidido em Maputo. Um dia, vou ao aeroporto da Beira e vejo um avião militar a transportar pessoas. Meti-me na fila e consegui entrar. Quando cheguei a Maputo, não saía do Ministério da Educação. Eles recusaram e tive de voltar para a Beira; mas voltei e acabei por entra em Engenharia Informática. Era o primeiro curso que a Universidade Eduardo Mondlane ensinava. Há um belo dia que recebo uma chamada da Beira, da empresa onde estive a fazer o part-time, e a senhora da contabilidade diz-me que a empresa foi abandonada pelos donos. Eu tinha 18 anos e ela diz-me que há três procurações: ela tem uma, o procurador outra, mas eles não querem, e eu sou o terceiro. E naquela força da juventude…

Inconsciente…

Um bocadinho inconsciente, fui para a Beira. Aí começa um novo desafio na minha vida. E quando começam a fazer o rol do ativo e do passivo, as surpresas e as dores de estômago começam. A empresa tinha responsabilidades na banca acima de 4 mil milhões de meticais. Tinha trabalhadores e poucos ativos, que eram os monos – não tinha propriedade – e aí caio na realidade. Mas já tinha assumido. E aprendi com meu pai: um homem só vale aquilo que é a sua palavra. Então reuni com os trabalhadores e disse: “Eu não tenho meios financeiros mas tenho vontade. Vamos pegar nisto e trabalhar juntos?” A primeira coisa que eu fiz foi estudar os mercados, os monos que eu tinha na Beira serviam em Quelimane. Vendi tudo. Foi um cash flow que entrou, comecei a pegar nas obras que estavam paradas, a arranjar equipamento. Começámos a gerar receitas. E a Beira tinha uma coisa: tinha a indústria de cabos elétricos. Em Maputo não havia cabos elétricos. E eu tinha uma motorizada e comecei a usar os meios.

O setor privado, nessa altura, era muito incipiente.

Era o pequeno comércio, merceeiros…Em três ou quatro anos coloquei a empresa numa situação completamente saudável. Entretanto comecei também a fazer prestação de serviços para Quelimane, onde o meu irmão era o distribuidor da indústria hoteleira, e ele deu-me uma cota na empresa. E foi neste processo, como eu vivia em Maputo e tinha casado, que em 1990 ele diz assim: “Agora vamos a uma hasta pública, porque há aí umas empresas que foram intervencionadas pelo Estado e você pode fazer o bidding.” O lance era para uma empresa de construção, que era a Pinto Brás África. Eu, que estava no ramo eletrotécnico, fiquei com uma construtora e o meu vizinho, tinha a Eletrosul, que era uma oficina de bobinagem. Então propus-lhe parceria.

Complementaridade, claro.

Sim, ele ficou com uma parte da minha empresa de construção e eu ficava com uma parte da empresa de eletricidade. E começámos, sempre eu a gerir, até que mais tarde o senhor, que também era funcionário público – era um engenheiro que trabalhava para os caminhos-de-ferro – disse “Ó pá, fica com a minha quota. Eu vendo isso.” E eu acabei por comprar a Eletrosul e ficou 100% minha e da minha esposa.

Daí em diante foi sempre a crescer.

Sim. Formei a Intelec. Depois em 1992, houve a cessão da paz. Em 1994 o Estado sai para um regime aberto, descentralizado, e começa a querer ter pessoas com outras opiniões, empresários a entrar para o sistema e empurram-me, assim, um pouco para também ser candidato à Assembleia da República.

E foi candidato nas primeiras eleições multipartidárias do país.

E sou eleito pela minha província natal, a Zambézia - fui o 7º mais votado.

Eleito, portanto, pela Frelimo.

Sim, sim. E exerço assim a minha curta passagem pela política, de 1994 a 1999. Fui ainda reeleito mas pedi para sair porque a minha vida empresarial estava um pouco em declínio. A minha esposa, que estava a estudar Medicina, deixou para ajudar a empresa.

Mas não gostou da experiência?

Não é uma questão de gostar ou deixar de gostar. A minha passagem pelo Parlamento deu-me uma outra visão do país, dos desafios e das necessidades do país.

Hoje como é que se definiria ideologicamente: um homem de esquerda, de centro, de direita?

Sou um homem do centro. Vou aprendendo o equilíbrio entre a esquerda e a direita e acredito que tudo na vida tem de ser comedido. Acredito que a economia de mercado criou condições para que o setor privado possa ser o motor de uma economia mas aprendi também que é preciso crescer com alguma distribuição sustentável. E acho que este é o processo que Moçambique está a aprender. Quando saí da política, achei que podia continuar a dar o meu préstimo, como cidadão. Então passei pela Associação Comercial de Moçambique. E depois sou o candidato a vice-presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique. Quando entrei para a Associação Comercial disse: “Vou-me candidatar mas vou-me limitar a um novo estatuto em que todos nós, como dirigentes, temos de saber que temos o dia para iniciar e o dia para finalizar.” Porque quem não tem isto, deixa andar e vai empurrando as coisas.

Com a barriga.

Isso, Mas sim, quando passei pelo Parlamento, fiz grandes amizades.

É daí que vem a sua amizade com Armando Guebuza?

Sim, também. Conheci o Armando Guebuza como tenho amizades com pessoas de vários partidos. A minha amizade com o Armando Guebuza, que era o meu chefe de bancada, começa com uma divergência. Há uma conversa e eu, que era dos mais jovens do Parlamento e não tinha papas na língua, aquilo que achava que não estava correto dizia. E as pessoas diziam: “Eh pá, não se diz isso aos mais velhos.” Um dos temas em debate era a educação e eu meti-me na conversa. “Nós temos de apostar na educação maciça mas, se não criamos embriões de qualidade de educação estamos condenados ao insucesso, porque não vamos ter quadros que defendam o grande progresso do país.”

A educação é a base de tudo.

Exatamente. E aquilo gerou ali um desconforto e então fiquei numa situação de persona non grata. Mas o Armando Guebuza é uma pessoa muito inteligente e gosta de ouvir as pessoas quando têm algo a dizer.

No fundo, é alguém que não gosta de lambe-botas.

Sim. Há um dia no Parlamento, em que a bancada da Frelimo está numa discussão um bocado embaraçosa e com os meus argumentos ganhei a confiança da bancada. E então recebo um bilhetinho a dizer: “Olha, parabéns. Você criou qualquer coisa como uma diarreia mental na oposição.” E a partir desse dia gerou-se uma conversa natural com o líder. E ele disse-me: “Mais do que nós fazemos às vezes nesses meandros políticos é exatamente o que tu estás a fazer – é entrar para o setor produtivo, criar empregos, fazer.”

E essa amizade com Guebuza trouxe-lhe mais alegrias ou dissabores? Ele está na sua holding.

Esteve.

Esteve. Há aquela perceção da confusão entre política e negócio?

Exatamente. Eu penso que o Armando Guebuza é uma pessoa visionária, um político acima da média do continente africano, que eu respeito muito como homem. Mas, para mim, foi-me muito mais útil antes de ser presidente. Quando ele decide candidatar-se eu não medi muito as consequências. Eu tinha vários: os técnicos e os gestores que sempre trabalharam na empresa têm partes na empresa, embora eu seja o sócio maioritário. As pessoas especulam que Guebuza é o sócio maioritário, mas já na altura eu tinha 70%. Ele acreditou, investiu como os outros. Mas quando ele se candidata e é eleito, um dos acionistas, que é jurista, disse que ia haver conflito de interesses, portanto sugeriu a Armando Guebuza demitir-se do cargo. E a empresa acabou por comprar as ações.

Mas havia quem dissesse que o Salimo era um testa de ferro…

Isso é tudo especulação. Agora, a partir do momento que ele é eleito, foi mais prejudicial para mim do que benéfico. Pode ser benéfico no prestígio, nunca deixei de ser amigo dele. Mas também nunca fui beneficiado na empresa, porque eu tenho a ética correta do que são os negócios. Fui o primeiro moçambicano a ser formado no Instituto de Global Ethics, nos Estados Unidos. E quando voltei a Moçambique, fui fundador da Ética Moçambique.

Mas não ignora que a perceção que as pessoas têm de que o universo que existe entre a política e os negócios é muito pouco claro…

Em qualquer sociedade, principalmente para a política, o que conta são as perceções. Mas para os empresários, são os factos.

Conhece a realidade moçambicana, já conhece também a portuguesa. Moçambique é um país corrupto? É mais do que Portugal?

Eu até tinha um termo: “Quanto mais questões burocráticas e administrativas se colocarem, mais lojas de corrupção nós geramos.” A corrupção é fenómeno global, umas vezes de forma mais camuflada que outras. Em países marginais, como os nossos, nas economias marginais como as nossas, é mais notável a pequena corrupção, porque é o incómodo do dia-a-dia da população. As pessoas necessitadas vão-se corrompendo para sobreviver. Então é a pobreza que gera a corrupção ou a corrupção que gera a pobreza?

E qual é a sua resposta?

São ambas, mas a questão principal é o berço. Eu venho ainda de uma geração em que os meus pais me ensinaram valores. Nunca tive tendência a ser corrupto e acho que o que me segurou foi o berço.

Foto: Orlando Almeida
Considera-se um homem rico?

Para mim, o conceito de riqueza é muito simples: é alguém que tem aquilo que são as necessidades básicas mas que, quando chega à hora do descanso, deita a cabeça na almofada e sabe que não tem dívidas e não passou por cima de ninguém. Voltando à corrupção, a outra questão que define Moçambique, muitas vezes, tem a ver com a cultura lusófona – os vizinhos sul-africanos têm uma cultura mais anglófona. Se um empresário português for a Moçambique, rapidamente vai entender o que tem que fazer, porque não há muita diferença; se um angolano for para lá, idem; mas se um sul-africano for para Moçambique vai ter muitas dificuldades e vai interpretar isso como corrupção. Porque o processo cultural de negócio é diferente. Eles têm um regime mais simplificado e nós temos aqueles processos todos de comércio internacional complicadíssimos, papéis em cima de papéis e carimbos de carimbos.

Não pensa voltar á política?

Não faz parte dos meus projetos. Mas aprendi nunca dizer nunca.

Portanto, não exclui a hipótese de um dia ser candidato a presidente?

Não, nunca disse isso. Apesar de não ser a primeira pessoa que pergunta. Talvez pela minha visibilidade. Mas estou a fazer o que eu gosto de fazer.

Mas o partido nunca o chamou?

Não. Estou presente sempre que é necessário e para os grandes feitos mas a minha grande contribuição ao país tem sido via empresarial.

Quantos postos de trabalho já criou ao longo da sua vida?

Neste momento tenho mais de 2500 empregos criados no meu grupo. E continuo a criar, e essa é uma das minhas grandes felicidades. Tenho projetos ambiciosos. Eu agora mandei fazer um levantamento e, cruzadamente, chegámos a 77 associações empresariais. Muitas não são estratégicas para mim. Então, o que fizemos foi orientar alguns setores específicos – o energético, que foi a génese da minha criação; o de telecomunicações; o agrícola, que eu acredito que os nossos países, na agricultura, têm muito para dar; e depois um pouco daquilo que são áreas do setor financeiro, onde estou com o Américo Amorim, com a Visabeira. Eu detinha uma empresa, a Eletrotec, que era 100% da Intelec, e achei que podíamos colocar a Visabeira. Eles compraram 49% e são os nossos sócios. No têxtil, juntei três empresas portuguesas do Norte e reerguemos uma indústria que esteve 20 anos fechada, a Riopele.

A antiga Riopele.

Agora chama-se MCM. E vai gerar muitos postos de trabalho. Está a dar a luz de novo a um distrito de Maputo que é o Marracuene. Com Américo Amorim, estamos a fazer uma plantação de soja interessante, com um parceiro brasileiro.

Um exemplo do triângulo CPLP: Moçambique, Portugal, Brasil.

São estas coisas que a gente deve mostrar como exemplo. A minha visão é empresarial. Se um dia for chamado a algo mais que eu possa contribuir com eficiência, eu irei fazê-lo. Mas a minha ambição é esta: ser um empresário de referência. Em mercados marginais como os nossos, muitas vezes o que conta são as perceções e a ambição de uma grande maioria dos jovens é quererem ser esses funcionários públicos, ser políticos porque acham que é dali que vão sobreviver. E eu quis dar um exemplo diferente.

Porque decidiu ser líder da confederação empresarial da CPLP?

A CPLP deixou de ser um projeto, passou a ser uma causa. Eu verifiquei que a instituição tem muitas carências e não era mais do que uma instituição de charme. Um clube de amigos. Então achei que tínhamos de ter um plano estratégico, de preparar algo consistente para podermos influenciar a parte política. E durante este processo, então começou a despertar dentro dos vários países a necessidade de se reconfigurar e dar uma outra vida à confederação. A CPLP tinha de ser mais económica, para dar alguma solidez às relações que se vinham criando, que eram mais linguísticas, culturais, por aí fora. E para isso era preciso que houvesse uma direção executiva eleita. Fizemos um plano para cinco anos e fomos a esta candidatura em novembro. Eram duas listas e a minha ganhou. Nove países, nove votos: é muita responsabilidade.

Esta dimensão empresarial e económica fazia falta, tendo em conta que a dimensão política existe?

Eu penso que a política e o empresariado devem andar casados. São dois pilares importantes a partir dos quais se geram outros pilares.

Mas a CPLP é um projeto ameaçado, neste momento?

Eu não gostaria de abordar pela parte negativa. Eu acho que esteve ameaçado porque não havia pragmatismo. Quero valorizar um pouco a visão do atual secretário executivo. Quando peguei na liderança da confederação, conversámos e vimos que, de facto, uma CPLP sem uma parte económica que dê consistência será uma CPLP adormecida. Se nós conseguirmos reunir estas energias e dar alguma consistência no pilar empresarial-económico vai certamente interessar, é um valor acrescentado. O Brasil com a presidência Lula, estava a olhar para a CPLP e os PALOP com uma outra dimensão, infelizmente, se calhar, a presidente Dilma não é que tenha largado o projeto, mas encontrou outros…

Outros interesses?

Outros problemas, não teve o mesmo momento que o Lula e deu menos importância à CPLP.

Mas isso resulta da existência dos problemas para resolver? Estando num momento de pujança, o Brasil olha para a CPLP como uma espécie de perda de tempo, porque tem outros parceiros potencialmente mais atrativos?

A liderança do Brasil pode ter prioridades.

E a CPLP deixou de ser uma delas?

Não sei se deixou ou se tem menos visibilidade. Mas às vezes tem que ver um pouco com o protagonismo que os líderes políticos pretendem chamar a si próprios e, através de si, aos países. Por exemplo: muitas vezes eu já ouvi dizer que a CPLP é Portugal. Não faz sentido, 40 anos depois das independências, continuarmos a alimentar aquilo que não existe. Há que eliminar o passado, olhar o presente e o futuro.

No fundo, é acabar com o complexo de colonizador e colonizado.

Exatamente. Esses tabus têm de ser despidos para nós olharmos para aqui como sobrevivência da comunidade da CPLP. Fortificá-la economicamente. E é através da fortificação económica que depois vamos fortificar a cultura, a nossa influência no mundo. Portugal tem a desvantagem de ter sido um país colonizador, que sempre marca esta desconfiança. Mas tem a vantagem de ser um país da CPLP que está na Europa – com acesso à tecnologia, à influência política global que pode transportar e ajudar os países seus irmãos, que estão num país emergente, contra a estratégia global do Ocidente que muitas vezes não lhes permite tão facilmente serem países de sucesso. Moçambique, por exemplo, tem tudo para dar certo.

Recentemente houve tentativas de desestabilização da Renamo…

Mas isso o que é? Para mim, como empresário, não é mais de que uma tentativa de influência externa, mais do que interna. Porque o reerguer de um partido que esteve tão adormecido, para depois aparecer com ameaças de guerra civil, numa altura destas, um partido que tem assento no Parlamento, que tem tudo para nos ajudar e fazer um granjeamento das massas populares com influência política, aparece hoje a ameaçar com a guerra. De onde é que vem? Não é de dentro.

Quem é que tem medo do sucesso de Moçambique?

Não sei. Mas daquilo que vou aprendendo na geopolítica, penso que os dominadores das economias globais são os que não querem que as outras economias apareçam. Às vezes as superpotências continuam a querer o protagonismo dominador das economias globais e criam estratégias que mancham e inibem o processo dos países que querem criar uma estabilidade, mesmo demonstrando as democracias internas. Apesar de eu achar que o mesmo sistema político não deve ser igual em todos os países. Eu fui recentemente à Guiné Equatorial…

Eu ia perguntar-lhe isso.

Fui com uma delegação forte. A maior parte dos empresários que me acompanhavam eram portugueses, éramos cerca de 30. Não houve um único depois do balanço, que não estivesse surpreendido com aquilo que vimos na Guiné Equatorial. Antes estávamos críticos, porque consumíamos aquilo que líamos na imprensa. Mas o que vimos!

Mas isso também se pode construir.

Tudo se pode construir. Mas aquilo que vimos, o desenvolvimento e as infraestruturas – as casas, a qualidade de standard de vida das pessoas - deixa para trás muitos dos nossos países, em que a gente olha para o lado e vê bastante pobreza, criminalidade em países muito mais democratizados, se calhar. A Guiné Equatorial tem eleições. Eh pá, se eles dominam o sistema ou não… Eu olhei para a Guiné Equatorial e lembrei-me do Dubai. Porque o Dubai é um país que tem o sistema que tem e eu percorri aquilo ao longo da autoestrada de ligação de uma estrada para a outra e vi o desenvolvimento. Eles constroem casas sociais para a população, água, acesso, energia. Do que vi na Guiné Equatorial, isto é a parte positiva. Também há o resto. Por exemplo: a pena de morte…

Tem como prioridade a livre circulação de pessoas, bens e capitais.

Acredito que mobilidade vai resgatar a afinidade na CPLP. Uma grande parte da comunidade da CPLP está no setor informal. E o setor informal é assegurado pelas mulheres, que viajam, fazem os seus negócios de trade, de compra e venda, de pequena dimensão, mas alimenta muito. As mulheres moçambicanas, por exemplo, são as que mais viajam para ir comprar ao Dubai, à África do Sul, à Malásia. Mas muitas têm dificuldade com a língua. Se nós abrirmos o espaço, elas, que falam português, vão preferir ir ao Brasil ou a Portugal fazer este intercâmbio.

A venda da TAP pode prejudicar a existência de rotas prioritárias para os PALOP?

Para as ambições da CPLP, pode ser um grande handicap, porque, de facto, a TAP é um parceiro estratégico. É a única companhia nos CPLP que faz a ligação com quase todos, senão todos, os países. Mas penso que eles não devem abandonar este mercado porque tem potencial. Nos mercados que sustentam a TAP estão Angola, o Brasil e Moçambique.

Quais são as barreiras à construção da comunidade de livre circulação na CPLP?

A primeira é a inércia, porque todos falamos da necessidade mas pouco está a ser feito. Vejo nos comentários nas redes sociais que muitos da nossa comunidade, entre os 15 e os 35 anos, sentem-se mais inseridos na SADC do que na CPLP. Dizem: “Como é que somos comunidade se eu para ir para Angola ou para Portugal tenho de andar com vistos e às vezes nem consigo? Se quero ir à África do Sul pego no meu carro e vou amanhã, ou pego no avião e vou para o Zimbabwe.” Não nos esqueçamos de uma coisa: a língua no impacto da empresa tem um custo de 17%.

Em termos de custos?

Custos. Muitas vezes mede-se isto como uma coisa supérflua, porque a nível das grandes empresas os gestores falam várias línguas, mas quando desce para o 2º ou 3º nível de gestão, a língua é extremamente importante, é um asset.

Como é que um empresário moçambicano olha para o que se passa hoje na Europa?

Com muita preocupação. Nós, empresários, temos muita ligação à Europa e a Europa começa a demonstrar algumas fragilidades… Mas penso que a Europa está num estágio político mais maduro, que saberá contornar este percalço.

E como vê o papel da Alemanha no contexto europeu?

Diria que não devemos querer o mal da Alemanha, assim como nós em Moçambique não queremos o mal da África do Sul. No dia em que a África do Sul não tiver comida nas prateleiras, nós nem prateleiras vamos ter. Se a Alemanha afundar, a Europa vai ser muito mais afetada – é o motor da Europa. Quanto melhor for, mais a Europa vai crescer. Portugal é um país que eu olho com alguma preocupação, porque é um país da CPLP e está a fazer um grande esforço para atravessar a crise, e tem esse mérito, mas é muito autodestrutivo… os portugueses têm as infraestruturas ideais, um clima ideal, culinária e gastronomia supra, que pode ser a grande meca do turismo para a Europa. Mas tem de criar autoestima.

Esse é um dos problemas dos portugueses, a falta de autoestima?

Não é só dos portugueses, é um problema lusófono.

Somos autofágicos, não é?

É. Olho para Portugal aqui há dez anos e fico espantado: investiu bem, criou infraestruturas… é de mais? Nunca é de mais. Agora tem o turismo – eu vou investir no setor hoteleiro, em Portugal.

Salimo é muçulmano. Pratica?

Não me considero um bom muçulmano. Nasci muçulmano e acho que a religião é uma forma de educação. Nada mais. Tenho parte da família cristã, católica, e parte muçulmana.

Aliás, é casado com uma cristã.

Sim. Acredito que as três religiões monoteístas têm a mesma forma. Portanto, se me perguntar se há alguma diferença entre as religiões digo que não. Há sim na cabeça dos fanáticos.

Como olha para o Estado Islâmico?  

Com muita preocupação. Estão a usar a religião para fins obscuros. O poder, a destruição, tudo menos o que é a religião: a paz, o equilíbrio e amor ao próximo. Isto é crime, é assassínio.

Vai aos Estados Unidos com frequência. Nunca teve problemas por ser muçulmano?

Graças a Deus, nunca.

Foi importante para si haver um presidente negro nos EUA?

Para mim, a questão da raça não é importante. Mas foi um sinal. 


Nuno Saraiva – Portugal in “Diário de Notícias”

sábado, 25 de julho de 2015

CE-CPLP – Entrevista a Salimo Abdula












“Países como a Guiné Equatorial terão benefícios em abrir-se ao mundo. Foi o penúltimo país que visitámos e surpreendeu-nos. Podem colocar-se várias questões, mas se os cidadãos têm uma qualidade de vida melhor que grande parte dos países africanos, estamos a discutir o mais importante?”

Os constrangimentos são muitos, mas o presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) não tem dúvidas: o caminho é maior integração. Em Lisboa para uma conferência de empresas exportadoras organizada no final de Junho, Salimo Abdula pediu liberdade de circulação de pessoas e capitais.

Foto: Bruno Simões

Jornal de Negócios - É difícil identificar a actividade da confederação. Somos nós que andamos distraídos ou têm sido pouco activos?

As duas coisas. Aquela CPLP com base na língua e na cultura fazia sentido até ao momento, mas se não criássemos alguma consistência, iria desmoronar-se.

N - O objectivo da confederação é ser o braço económico da CPLP?

Os empresários apelaram a outra postura, uma solução para a imagem desgastada da CPLP. Um dos nossos grandes objectivos é que haja livre circulação de bens, capitais e serviços. Não faz sentido chamar-lhe comunidade, quando não podemos circular dentro de casa. Se estiver numa casa, mas tiver de ficar no seu quarto, não se considera parte da família. A língua representa cerca de 17% dos custos das empresas, mas só tem efeito económico se for potenciado pela livre circulação. Queremos também criar a marca CPLP para identificar produtos da comunidade.

N - Em alguns casos a marca nacional não é mais forte? Estou a pensar no Brasil.

Tem toda a razão, mas se começamos com os problemas não temos soluções. O nosso lema é: “se queres ir rápido, vai sozinho; se queres ir longe, vamos juntos.” É um sonho. Mas temos de começar por algum lado. Temos de eliminar tabus.

N - Que tabus?

O factor de colonizados e colonizadores [existiu] sempre... Mas passaram 40 anos. É muito tempo. Não podemos fazer das gerações vindouras reféns. Temos de ser pragmáticos. A CPLP está estrategicamente colocada: nove países, quatro continentes. Podemos oferecer lazer de qualidade, grande produção de alimentos e dentro de duas décadas representaremos 25% do “oil and gas”. Portugal teria mais a ganhar com urna inserção pragmática na CPLP. Está a gerir a sua actualidade, hipotecando o seu futuro. O presente se calhar é a União Europeia, mas no futuro terá mais benefícios em juntar-se à causa da CPLP.

N - Para um empresário português que queira Investir em alguns países da CPLP, a aplicação da lei ainda é um problema?

Sim, tem de ser melhorado. Há dificuldades, mas também grandes oportunidades. Primeiro temos de abrir e depois gerir a abertura. Sou moçambicano e vejo dificuldades para um empresário sul-africano operar em Moçambique. Acha aquilo muito corrupto. Mas não é! O problema é a cultura de negócios, que é totalmente diferente. Um português vai entender muito mais rápido.

N - Não sei se isso é um elogio...

É um elogio porque nos entendemos.

N - Como se compatibilizam regimes tão diferentes como a Guiné Equatorial ou até Angola com países como Portugal ou Brasil?

Dei o exemplo de uma casa para falar de comunidade. Nem todos os irmãos são iguais. Uns são doutores, outros são pedreiros, outros são marginais. Mas pertencemos à mesma família e temos de conviver. Não nos vamos intrometer na soberania de cada país, vamos buscar sinergias positivas. Países como a Guiné Equatorial terão benefícios em abrir-se ao mundo. Foi o penúltimo país que visitámos e surpreendeu-nos. Podem colocar-se várias questões, mas se os cidadãos têm uma qualidade de vida melhor que grande parte dos países africanos, estamos a discutir o mais importante?

N - Muitas vezes o investimento angolano em Portugal é muito criticado. Isso incomoda-o?

Bem-haja Angola por investirem Portugal e não noutro país. Portugal tem dificuldades, precisa de criar emprego e estes países irmãos podem ser uma solução. Nuno Aguiar – Portugal in “Jornal de Negócios”


Perfil – A face empresarial da CPLP
Natural de Moçambique, Salimo Abdula é um empresário que começou este ano a cumprir o mandato de quatro anos à frente da Confederação Empresarial da CPLP. Foi eleito por unanimidade dos nove países. Abdula é ainda presidente da Mesa da Assembleia Geral da Confederação das Associações de Económicas de Moçambique, presidente do Conselho de Administração da lntelec Holdings. S.A. e presidente de Conselho de Administração da Vodacom Moçambique.