Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 19 de agosto de 2017

O cruel realismo do cais do porto: Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves

                                                            I
Mais de uma vez se chamou a atenção do público-leitor para uma curiosa contradição que parece ter-se instalado de maneira sólida e obstinada no universo literário brasileiro, a qual não nos custa repetir: enquanto a recente produção literária nacional revela-se impressionantemente criativa, ela recebe, em contrapartida, um tratamento incompatível com sua qualidade estética, principalmente nos meios de comunicação e nos canais de divulgação artística, isto quando não são relegadas ao completo ostracismo, resultado de um silêncio ao mesmo tempo pérfido e cruel. Tal constatação procura, antes de mais nada, colocar por terra a propalada tese de que a literatura nacional estaria vivendo uma grave e crônica crise criativa, opinião assentada antes sobre um imponderado exercício de impressionismo crítico, do que sobre uma análise imparcial da atual realidade estética de nosso país.

Exemplo claro, entre outros, de uma literatura em muitos aspectos reveladora – e, sintomaticamente, pouco lembrada pela crítica – é a obra literária do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, que com o seu premiado romance Os Vira-latas da Madrugada (1981) está por merecer um lugar de destaque dentro da mais recente produção literária nacional. Natural da litorânea cidade de Santos e tendo dedicado grande parte de sua atividade profissional ao jornalismo, Adelto Gonçalves é um típico exemplo do descaso que a crítica literária contemporânea tem devotado aos mais novos escritores.

Tal descaso, contudo, revela-se de todo injustificado: manipulando basicamente duas categorias universais distintas – o homem e o meio –, Adelto Gonçalves procura, em seu romance, retratar o embate travado entre ser e espaço, entre o físico e o humano, embate este marcado por uma forte carga emotiva e realista. Neste sentido, não nos parece demasiado exagero afirmar que o autor se coloca, embora em menor grau, entre alguns dos continuadores da tradição literária que reconhece no espaço um componente privilegiado do romance, elemento no qual o ser alcançaria sua plena realização ou a sua mais absoluta decadência.

Assim, poder-se-ia inserir sua obra, feitas as devidas ressalvas, na categoria do que a teoria literária convencionou chamar de “romance de espaço”1, em que talvez pudéssemos introduzir nomes tão relevantes como os de José Eustasio Rivera (La Vorágine), Euclides da Cunha (Os Sertões) e Rómulo Gallegos (Doña Bárbara), para ficarmos apenas nos latino-americanos. Logicamente, semelhante observação não busca dar ao romance de Adelto Gonçalves o mesmo grau de importância desses que, indubitavelmente, podem ser considerados verdadeiros clássicos da Literatura Latino-Americana, mas apenas revelá-lo como mais um dos originais herdeiros de tão fecunda tradição.

Deste modo, se nas obras aqui citadas o que se verifica, acima de tudo e num primeiro instante, é a disputa que acirradamente trava o homem e a floresta (Rivera), o homem e o sertão (Cunha) e o homem e a planície (Gallegos), em Os Vira-latas da Madrugada o mesmo embate pode ser percebido entre o homem e o cais do porto, um espaço, como todos os demais aqui aludidos, marcado por características peculiares, por normas e leis próprias, por uma realidade singular.

                                                           II

O romance de Adelto Gonçalves desenvolve-se em Paquetá, bairro da zona portuária de Santos, onde aliás o autor viveu a maior parte de sua vida. É um romance de muitas personagens, embora com pouco destaque para elas, já que, como fora aludido, é o componente espacial que ganha maior relevo no decorrer dos acontecimentos; a existência trágica, o sofrimento cotidiano, a luta homérica contra um meio físico subversivo parecem ser o elo inexorável que liga figurantes e personagens a um destino comum. No rastro desses elementos, o autor procura dar aos acontecimentos um caráter documental, seja por vários de seus episódios estarem assentados em fatos do cotidiano, trazidos à tona por meio das reminiscências do próprio autor (“eu era muito pequeno, quando algumas destas histórias aconteceram”)2, seja pela tentativa confessada do autor em colocar em seu romance personagens que um dia existiram de fato. Não obstante o romance tender ao documental, Adelto Gonçalves não hesita em rechaçar qualquer intenção em fazê-lo histórico (“não pretende este livro uma imagem de histórico”, p.31).

Analisando o cenário em que os episódios se desenrolam, percebe-se que, com uma habilidade inquestionável, Adelto Gonçalves desloca a narrativa de cenário tradicional, caracterizada pela dicotomia cidade/campo, para uma realidade totalmente nova e diferente – o cais do porto. Sem ser campo, mas também sem chegar a ser completamente cidade, o cais do porto parece situar-se numa zona limítrofe, num indefinível meio-termo, universo norteado por uma espécie curiosa de natural dicotomia: contém, ao mesmo tempo – e numa mistura que apenas um espaço com características tão originais poderia conter –, particularidades tanto do campo quanto da cidade, o que nos permite reformular nossa afirmação anterior: para além de ser uma região dicotômica, o cais do porto é, sobretudo, um espaço híbrido.

Por ser híbrido, ele também agrupa em si o arcaico e o moderno, trazendo consigo todas as infinitas contradições que esta mistura pode acarretar: excessos, desvios e, principalmente, injustiças. Caberia, a esta altura, perguntar em que o meio físico do cais, stricto sensu, se difere dos demais. Em que, realmente, ele é peculiar? Uma simples análise da descrição que o autor faz do local parece-nos suficiente para que estas peculiaridades aflorem em definitivo:

“mais adiante, viu novamente os armazéns das docas, uma locomotiva passando rápida, solitária, os guindastes que se sobressaíam além do teto dos armazéns. De vez em quando, um caminhão passava, em meio aos buracos, espirrando lama das poças fétidas – um cheiro de mistério como o de todos os portos do mundo. E perdeu-se na zona do Golfo: à esquerda, um sem-fim de armazéns amarelos, sujos, descaiados – cargas em fileiras nas ruas, cobertas por encerados, um policial adiante –, à direita, uma longa fila de botequins – mulheres desenxabidas sentadas às portas, olhando a chuva batendo nas pedras das ruas, nas latas vazias” (p. 21).

                                                           III
Guindastes e botequins, lama e prostitutas, música e locomotiva: tudo parece contribuir de maneira inusitada para a composição de um cenário francamente grotesco; a conformar sua paisagem, há ainda a presença sugestiva de morcegos e ratos, da densa lama a se espalhar continuadamente por todo o cais, da atmosfera decadente do local, além de sua aparentemente natural subversão.3

No limite, contudo, é o elemento humano que faz do cais o que ele realmente é, fisicamente ou não: um mundo à parte, marcado pela violência e pela injustiça, pela extrema individualidade e absurda inconsequência, pela trágica fatalidade a se refletir nos olhos dos homens e pela contundente tristeza a dissimular-se no sorriso acanhado das mulheres:

“mas igual a este beira-cais, como dizem os velhos marinheiros, não existe lugar em outra parte do mundo. Aqui é onde as mulheres das ruas já não brigam mais por causa da traição do amante, mas porque a outra lhe roubou o freguês; onde os moleques, vira-latas da madrugada, percorrem a noite inteira em busca de um otário, roubam os bêbados caídos nas calçados, dormem com os pederastas e vivem de pequenos furtos (...); onde os pretos esfarrapados se deitam nos vãos de porta e dormem com o cuspe grosso de cachaça escorrendo no canto da boca e sonham com a família que não tiveram e com a moça loira que anuncia Coca-cola (...); onde as pessoas têm a cor do rosto amarelada, pálida, os olhos fundos, o cabelo ensebado, a pele macilenta como a dos jogadores de sinuca” (p. 33).

E assim chegamos ao outro pólo do embate que – ao lado do espaço romanesco – a obra de Adelto Gonçalves procura retratar: o humano. Em Os Vira-latas da Madrugada, as cenas como que se desprendem das páginas do livro para preencher um espaço na mente do leitor: não são cenas simples, comuns, mas antes passagens dotadas de uma intensa complexidade existencial, que se esconde por detrás de cada ato realizado ou de cada palavra proferida.

Uma questão social se impõe logo de início: Os Vira-latas da Madrugada são um romance dos marginalizados. Em suas páginas, prolifera-se todo um universo por meio do qual o autor procura revelar a crua e violenta realidade do cais, onde bêbados e prostitutas disputam um espaço nos botequins, onde meninos de rua partem em busca de algum dinheiro fácil, onde trabalhadores tristes e solitários – embrutecidos pelo ofício duro e desvalorizado – pervagam sem destino pelas ruas enlameadas. Assim, temos um quadro de relações sociais completamente subvertidas nesse mundo em que reinam a malandragem, o poder perverso e a exploração.

Entre o patético e o selvagem, há a dura realidade – seja ela a realidade da prostituição, seja ela a realidade do poder. Assim, aos olhos de Sula, a realidade de uma existência prostituída – mais do que a de um corpo prostituído – mistura-se melancolicamente com o seu passado ideal, agora, mais do que nunca, distanciado do presente; e esta é apenas mais uma das muitas mulheres que cumprem rigorosamente um destino marcado pela humilhação, pela violência e pela tragédia pessoal. No que diz respeito à realidade do poder, também pode-se perceber no romance todas as suas perversões, todos os seus desvios, quer se trate do poder político constituído, do poder policial-repressor ou do poder da coerção social.

O que sobra de tudo isso é uma compreensão profundamente pessimista da realidade, a qual é compartilhada por quase todas as personagens do romance, mas particularmente por Marambaia.

Também o leitor é tomado, de certa maneira, pelo clima pessimista que logo se impõe: acompanhando de perto a narração dos acontecimentos no cais, ele passa, involuntariamente, a sofrer com as personagens da história, compartilhando de seus anseios e angústias, de suas tristezas e desgostos, de seus tormentos e aflições.

As últimas palavras do autor marcam o encerramento do romance, mas também atam as duas pontas de um fio narrativo que vinha percorrendo toda a obra. Sua conclusão revela-se particularmente constrangedora – como o próprio autor faz-nos perceber, trata-se de uma autêntica confissão, onde se pode facilmente distinguir a mescla de dor e revolta que a conforma:

“as vozes que me trouxeram até aqui já não ouço mais. Estão mortas, estão assassinadas. Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência em nome de valores morais que a ambição já desmoralizou há muito tempo” (p. 163).

Suas cruéis histórias, por isso, são tão mais cruéis quanto mais reais se tornam com o tempo. Maurício Silva - Brasil


Notas
1 KAYSER, Wolfgang. Análise e Interpretação da Obra Literária. Introdução à Ciência da Literatura. Coimbra, Arménio Amado, 1976.
2 GONÇALVES, Adelto. Os Vira-latas da Madrugada. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981. Todas as referências a esta obra serão retiradas desta edição, doravante aparecendo apenas o número da(s) página(s) em que se encontram.
3 Para uma definição sucinta do grotesco, consultar: MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo, Cultrix, 1978, e KAISER, Wolfgang. O Grotesco. São Paulo, Perspectiva, 1976.


Publicado em Sentidos Secretos – Ensaios de Literatura Brasileira (São Paulo, Editora Altana, 2005, págs. 137-144) e em Leopoldianum. Revista de Estudos e Comunicações, Santos, vol. XX, nº 56: 144-149, abr. 1994.

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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, 2ª edição, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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Maurício Silva possui doutorado e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo; é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação, na Universidade Nove de Julho (São Paulo); atuou como pesquisador da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 2012 a 2013 e, atualmente, é pesquisador residente da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo; é autor de A Hélade e o Subúrbio. Confrontos Literários na Belle Époque Carioca (São Paulo, Edusp, 2006), A Resignação dos Humildes. Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto (São Paulo, Annablume, 2011), e O Sorriso da Sociedade. Literatura e Academicismo no Brasil da Virada do Século (1890-1920) (São Paulo, Alameda, 2012), entre outros.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A voz dos vencidos e de seres sobrantes

I
Adelto Gonçalves não é nenhum iniciante. É jornalista, escritor, doutor em Letras, professor universitário e crítico literário, como consta de seu curriculum vitae, em feliz hora inserido no final desta segunda edição de Os vira-latas da madrugada, numa “Nota do Editor”, sob o título “Adelto Gonçalves e sua obra” (p. 209-215).  Entre as dezenas de títulos por ele publicados – livros, capítulos de livros, artigos dos mais diversos, resenhas sem conta –, Os vira-latas da madrugada é a sua primeira ficção, embora seu livro de estréia na literatura tenha sido a coletânea de contos Mariela morta (1977).

Os vira-latas da madrugada conheceu uma trajetória movimentada. Aos dezenove anos de idade, Adelto Gonçalves tinha o texto pronto. Reescrito entre 1977 e 78, isto é, quando contava 26, 27 anos, o jovem autor candidatou-se ao Prêmio José Lins do Rego, concurso de amplitude nacional, promovido pela reputada Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro. Foi classificado com uma menção honrosa, o que lhe valeu a publicação do romance em 1981. O livro constou em décimo lugar entre a centena de obras alistadas pelo jornalista e professor Marcos Faerman para estudantes de uma tradicional faculdade de Jornalismo e que obrigatoriamente deveriam ser lidas.

O prefácio, escrito por Marcos Faerman, foi censurado pela ditadura na época, não constando nessa primeira edição, tendo sido no mesmo ano em parte divulgado pela mídia independente como “trechos de um prefácio censurado, sobre tempos nubulosos”, como podemos ler à página 214 da segunda edição, de 2015, da editora LetraSelvagem, de Taubaté, São Paulo. Aí é finalmente publicado esse primeiro prefácio por inteiro (p.7-10), além de um posfácio, de Maria Angélica Guimarães Lopes (p. 205-208), texto publicado na Revista Iberoamericana, do Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, da Universidade de Pittsburg, EUA, jan-jun.1985, nº 130-131, p. 392-394, e republicado nesta presente edição.

A época em que os acontecimentos do romance decorrem não é difícil de ser intuída: o Brasil do século XX. Como consta da “orelha” do livro: “rememorações da época do tenentismo da Coluna Prestes” que “passam pela época Vargas e chegam até o período pré-golpe de 1964”. E como o próprio narrador revela: “Eu era muito pequeno, quando algumas destas histórias aconteceram” (p. 48).

                                                           II         
A temática e a condução da trama elegidas por Adelto Gonçalves caíram no desagrado dos censores da ditadura militar brasileira e Os vira-latas da madrugada foi uma das obras por eles visadas. Daí, inclusive, o mérito desta segunda edição, reabilitando e recuperando um romance que constitui um libelo contra a exclusão social, uma crítica ao desrespeito pela liberdade e uma denúncia do abandono em que vivia a população humilde da região portuária da cidade de Santos – e não só.

Os vira-latas da madrugada é o décimo terceiro volume da coleção “Gente Pobre” da editora LetraSelvagem. O feliz título é uma metáfora que vem ampliar e enriquecer a já extensa lista de designações para a “gente pobre”, aqueles que alicerçam a base da pirâmide social, os menos ou nada bafejados pela sorte, a “massa marginal dos esquecidos”, os subalternos, os “pobres diabos” (p. 45), aqueles que o filósofo Enrique Dussel chamou de seres sobrantes, descartados pela ética excludente e utilitarista do desenvolvimento capitalista.

Este livro é o retrato de uma sociedade excluída, vegetando à margem das funções relevantes do conjunto social de uma das cidades mais importantes do país. Apraz-me lembrar que o pensador e teórico alemão Niklas Luhmann, ao visitar o Brasil, viu-se confrontado com a marginalidade e desumanidade da vida nas favelas dos grandes centros urbanos. O que contribuiu para ele repensar a sua abstrata concepção estruturalista dos sistemas sociais (Soziologische Systemtheorie).

Verificando que grandes contingentes da população que ocupa as periferias ou centros decadentes – indivíduos reais e em toda a sua complexidade de seres humanos – não pareciam ter nenhuma relevância funcional nem nenhum retorno dentro do sistema social em seu conjunto, embora a ele pertencendo e nele vivendo, mesmo que de forma indigna e sem direitos próprios (cf. Niklas Luhmann, no primeiro volume da sua Die Gesellschaft der Gesellschaft, 1997, p. 618-634; publicado no México, na tradução de Xavier Torres Nafarrate, 2007). Luhmann, a partir dessa vivência, ampliou com elementos concretos, “reais”, sua reflexão sociológica e teórica do que é considerado marginal, precisando os conceitos de inclusão e exclusão como instrumentos de análise estrutural do sistema social.

Uma abordagem de qualquer aspecto da pobreza merece passar também pelo crivo da reflexão sobre o colonialismo e suas consequências, levando em conta a afirmação de Homi Bhabha que a pós-colonialidade “é um salutar lembrete das relações ‘neocoloniais’ remanescentes no interior da ‘nova’ ordem mundial e da divisão de trabalho multinacional” (Bhabha, O local da cultura, 1998, p. 26). Adelto Gonçalves procede em seu romance à “autenticação de histórias de exploração”, para de novo citar Bhabha, evidenciando ao longo dos capítulos como suas personagens desenvolvem as mais diversas “estratégias de resistência” (ib.).

Não é possível deixar de ter em conta os muitos e diferentes processos e estágios de dependência e de marginalização dos países ex-colonizados, dos quais o Brasil faz parte e, nesse contexto, ressaltar as assimetrias existentes, por exemplo, entre a cidade e o campo, entre os centros urbanos e as periferias, entre os subalternos (Gayatri Spivac) e os donos do poder (Raymundo Faoro).

O conceito de subalterno foi divulgado, de forma polêmica, por Gayatri Spivak, teórica da literatura indiana, docente nos Estados Unidos. Em seus ensaios, ela insiste em uma revisão crítica da representação do “terceiro mundo”, pondo em relevo, entre outras análises, a clara discrepância existente, nos países ex-colonizados, entre as elites e a massa subalterna. “Subalterno” é o marginalizado, o silenciado, o ignorado, o sem voz, o sem direitos. Seu provocante ensaio “Can the Subaltern Speak?” (1988), onde Gayatri Spivak põe em dúvida a possibilidade de que essa situação de marginalidade e de afasia possa ser de fato ultrapassada, continua atual.

                                                           III
O narrador onisciente de Os vira-latas da madrugada esclarece não se tratar de uma réplica do histórico: “Longe disso”. Nem teve “intenção de transformar esses personagens em figuras épicas”. Desejou apenas “recolher histórias e inventar outras”. Histórias “do tempo em que os trabalhadores do cais ainda saíam aos gritos pelas ruas e os malandros, os moleques e as putas faziam do lugar um refúgio em sua luta pela sobrevivência” (p. 45). O autor adota uma posição compartilhante e solidária, mas ao mesmo tempo crítica e denunciadora, expondo sem condescendência, na representação literária, a realidade desse submundo, deixando claro o lugar de onde fala: “Aqui onde os moleques, vira-latas da madrugada, percorrem a noite inteira em busca de um otário, roubam os bêbados caídos nas calçadas, dormem com os pederastas e vivem de pequenos furtos; onde a piranha malandrinha ensaia um abraço casual na rua ao comerciário despreocupado e lhe leva a carteira [...]” (p. 47/48).

A cidade de Santos, ou melhor, a região portuária de Santos, o “beira-cais”, funciona em Os vira-latas da madrugada como uma metonímia para a geral situação de carência das periferias das grandes cidades do país. É importante levar em consideração o lugar de fala do narrador onisciente que desenha um painel suburbano em forma de mosaico, em que cada pedra tem seu colorido particular e sua forma específica, fragmentos de vidas não mais anônimas, pois recebem nome, voz e individualidade graças à escrita de Adelto Gonçalves.

Não se trata apenas de um rótulo para uma lista de estereótipos: o vagabundo, a prostituta, o revolucionário, o biscateiro, o desempregado. Trata-se de personagens vivas que vão povoar o romance, uma imensa galeria, numa pluralidade de existências e de estratégias de sobrevivência, nomeadas e cuidadosamente descritas, vidas e rostos quase todos já esboçados desde o primeiro capítulo: o moleque Pingola; Marambaia, o velho marítimo e foguista aposentado; seu amigo Quirino, “embarcadiço” e mulherengo, ambos politizados e inconformados; o vagabundo Plínio; as prostitutas Naná, Rosa, Sula; a bailarina Irene; Madame Sílvia, dona do bordel mais importante do local; o velho entalhador João de Angola; Teodorico, o louco, entre muitos outros.

                                                           IV
O autor maneja com habilidade a narração das diferentes histórias de vida, utilizando uma dicção áspera e sem peias, apropriada à crueza e à fealdade do triste ambiente em que essas vozes se alternam, exibindo a dureza da realidade que as cerca. Ao longo dos capítulos, cada vez uma personagem tem espaço bastante para que sua história individual se apresente, mas é digno de nota a perícia do romancista ao utilizar com frequência o recurso das narrativas encaixadas, recurso estilístico conhecido como mise en abîme, procedimento que consiste justamente em incrustar uma história dentro de uma outra, não permitindo aos leitores perderem-se no emaranhado daquelas vidas entrecruzadas, unidas pelo denominador comum da exclusão.

Michael Pollak, sociólogo austríaco radicado na França, criou a expressão “memórias subterrâneas” (POLLAK, Memória e identidade social, 1989) para definir as memórias que são abafadas pela memória oficial nacional, entendendo como “subterrâneas” as lembranças dos despossuídos e das minorias. O analista parte da observação das memórias oficiais e do reconhecimento da violência que advém dessa escolha unilateral, em detrimento de outras recordações que são postas em escanteio, mas nem por isso estão mortas, e sim apenas imersas em “subterrânea” invisibilidade.

Um dos principais méritos de Os vira-latas da madrugada é justamente esse trabalho de reconstrução de individualidades ignoradas ou silenciadas. Pois há um interrelacionamento significativo entre o silenciado, a memória e o esquecimento: através do instrumento do silenciamento, emudece-se a memória do subalterno, procura-se fazer esquecer a narração do status quo vergonhoso ligado à subserviência ou à exclusão aviltante. O silêncio boicota movimentos que tentam recuperar memórias sufocadas, incômodas, provocando o encobrimento do Outro, como afirmou Enrique Dussel. Muitas formas de dizer o dito mascaram o não dito, motivam distorções, estereótipos, camuflam os conflitos entre os senhores da “Casa Grande” e os que lutam pela sua visibilidade social.

O posicionamento do autor de Os vira-latas da madrugada não é inocente. Adelto Gonçalves aponta sem subterfúgios a procedência dos problemas que estorvam a consolidação de uma sociedade que se quer equitativa e equilibrada, problemas (e esperanças) que prosseguem presentes na atualidade. Dá às suas personagens espaço e direito de sonharem. Serve-se do referencial histórico de um largo período da história do Brasil, por ele mesmo vivenciado desde a infância até a idade adulta, para acusar o abandono das periferias, a sorte dos despossuídos, dos seres sobrantes. Adelto Gonçalves traça, de forma instigante e literariamente bem sucedida, a representação simbólica de uma específica comunidade de destino, de história e de luta. No momento político que o país atravessava, um livro como Os vira-latas da madrugada representou e continua representando uma relevante contribuição para a conservação da memória de fatos ocorridos.

Transparece pelo tecido literário de Os vira-latas da madrugada a onipresença da sofrida história de opressão interligada a práticas de resistência, nem sempre bem sucedidas. A solidariedade do autor para com os subalternos é convincente, assim como sua empatia pelos marginalizados ou socialmente desfavorecidos. A repulsa ao status quo vigente é conduzida com elegância, resultando em denúncia contra os abusos do poder e dos desacertos da então situação política do país. É arrojada e corajosa a exposição, nos capítulos finais, do apodrecimento dos frutos abortados de um legítimo sonho.

É essa postura e essa coragem que levam um autor já na sua juventude a uma tomada de posição concretizada no livro que escreveu mal saído da adolescência. Vale lembrar as palavras finais de Os vira-latas da madrugada:

“As vozes que me trouxeram até aqui já não as ouço mais. Estão mortas, estão assassinadas. Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência em nome de valores morais que a ambição já desmoralizou há muito tempo” (p. 203). Moema Augel - Brasil

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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural LetraSelvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br  Site: www.letraselvagem.com.br

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 Moema Parente Augel é doutora em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professora da Universität Bielefeld, Alemanha.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Um pungente retrato de um mundo marginal

Ainda hoje, nossas concepções acerca da história sofrem a contaminação de modelos baseados no chamado “senso comum”, no personalismo e em outros vícios que nosso sistema educacional teima em reproduzir. Com isso, resta esquecido que para refletir criticamente sobre os acontecimentos do passado – recente ou remoto – é preciso fazer uso de uma mescla de critérios científicos e subjetivos, trabalhados harmonicamente, em constante diálogo.

Aceitar como verdades incontestáveis as informações reproduzidas por determinadas pessoas ou por veículos de comunicação, cuja legitimidade baseia-se apenas em seus percentuais de audiência é, no mínimo, ingenuidade. Sem método para reflexão, sem análise criteriosa, toda informação é especulação. Por outro lado, os dados e os números frios, desacompanhados de interpretação, também não se traduzem em conhecimento efetivo sobre a realidade.

Mas, então, como confiar no que se vê, no que se ouve, no que se lê, sem correr o risco de reproduzir falácias ou ideias equivocadas? Questão difícil quando se sabe que a própria escrita da História ainda se debate entre o cientificismo puro ou o relativismo que a coloca como mais uma entre tantas formas de narrativa. Roger Chartier afirma que o trabalho do historiador não pode se afastar do objetivo de buscar a verdade, mesmo que tal objetivo possa ser, conceitualmente, impossível de atingir. Abandonar tal busca seria deixar o campo livre a toda sorte de falsificações, a todos aqueles que, “por traírem o conhecimento, ferem a memória”.

Assim, o exercício constante de um olhar crítico perante toda informação é uma forma de evitar, na medida do possível, a ideia enganada, o ato intempestivo e a reprodução do erro. Por isso, é importante não se fiar em uma única fonte informativa, aceitar que toda ideia evolui ao longo do tempo e, por fim, buscar conhecimentos que permitam discutir e compreender.

Dentre as ferramentas utilizáveis para a construção da história, a memória pessoal é a mais carregada de subjetividade. Assim, seu uso como forma de interpretação de determinado período ou fato histórico estaria contaminado por procedimentos próprios da literatura. Entretanto, desde que Walter Benjamin fez uso de fragmentos de memória para contar a história de uma cidade em “Infância em Berlim por volta de 1900”, aprendemos que se a memória é ineficaz para uma construção linear dos fatos, pode tecer um painel de percepções múltiplas, simultâneas e polifônicas que se entrecruzam para formar o tecido histórico, conforme afirma Pablo Porfírio. 

Adelto Gonçalves não omite o fato de que a memória é o reservatório de onde retira os acontecimentos e os personagens que povoam as páginas de “Os vira-latas da madrugada”. Em sua infância, vivida à beira do cais do porto de Santos, assistiu ao desfile desses trabalhadores portuários, malandros, bêbados, prostitutas, pequenos comerciantes contra o pano de fundo dos momentos que antecederam o golpe militar de 64.

É desse material que retira sua narrativa e é a partir dele que vão surgindo as figuras vivas do moleque Pingola, do revolucionário Marambaia, do aspirante a craque Cariri, das prostitutas Irene e Sula, do mendigo Plínio, de Nego Oswaldo, de Quirino, todos vivendo entre as boates, os cortiços, bares, armazéns e bordéis do bairro do Paquetá. O autor assume a condição de espectador dos fatos que deram origem à ficção ao inserir entre um capítulo e outro algumas descrições autobiográficas, que qualifica como “confissões”.

Se o recurso tenciona acrescentar credibilidade factual aos eventos narrados, a subjetividade memorialística invade o suporte histórico, resultando num movimento que passa do ficcional ao documental e àquele retorna, expandindo e enriquecendo a leitura. Dessa forma, se a interferência explícita da voz do autor não permite esquecer que estamos diante de suas lembranças, o momento histórico em que a narrativa transcorre surge por inteiro através dos olhos de uma testemunha ocular dos fatos.

“Os vira-latas da madrugada” é um pungente retrato de um mundo marginal, onde o lenocínio e a malandragem convivem com anseios por tempos novos, coroados pelo fim da exploração e da miséria de toda espécie. Aos olhos do leitor, os destinos desses personagens românticos defrontam-se com uma violência maior, implacável. E é então que sua luta por uma justiça social inatingível nos toca de maneira especial. Porque, enfim, ainda hoje partilhamos os mesmos sonhos e ainda buscamos os meios de transformá-los em realidade. Edmar Monteiro Filho – Brasil

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Os vira-latas da madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$ 35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br  Site: http://www.letraselvagem.com.br


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Edmar Monteiro Filho é mestre em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de São Paulo (Unicamp), título obtido com a dissertação “O major esquecido: Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos” (2013), e doutorando em Teoria e História Literária na Unicamp. Recebeu os prêmios literários Guimarães Rosa (1997) e Cruz e Souza de Literatura, entre outros. Publicou Fita Azul (romance, Babel, 2012) Este lado para cima (poesia, edição de autor, 1993), Halma húmida (poesia, edição do autor, 1997), Às vésperas do incêndio (contos, edição do autor, 2000), Que fim levou Rick Jones? (contos, 2010) e a novela Azande (novela, edição de autor, 2004).  Assina uma coluna em que faz resenhas de livros no jornal semanário A Tribuna, de Amparo. E-mail: edmont@uol.com.br

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

De vira-latas e de madrugadas criativas

                                             I
O autor destas linhas não sente acanhamento por usar uma expressão popular, talvez “batida”, mas de grande oportunidade: sentimos a “alma lavada” diante do texto do santista Adelto Gonçalves, tal a leveza com que conduz seus ensaios literários e suas obras de ficção. Sem que a expressão “leveza” signifique superficialidade.


Já conhecia o autor de textos acadêmicos, abordando em biografia o poeta Bocage (“o perfil perdido”), o nosso luminoso Tomás Antônio Gonzaga e o sombrio Pessoa, obras que lhe valeram prêmios e o reconhecimento da comunidade voltada para a escrita. Nas incursões ficcionais tive, há alguns anos, a oportunidade de me surpreender com a emocionante narrativa de Barcelona Brasileira, não por acaso ambientada no que parece ser o palco predileto de Adelto: o porto da cidade de Santos.

Naquele romance (que julguei fosse o primeiro), percebi o “buril” de retratista social, o uso do suspense de forma muito pessoal, narrando as arriscadas aventuras dos sonhadores anarquistas: “...(o Anarquismo é) só um código de conduta moral...” nos dirá o “vira-latas” Marambaia, à espera de uma sociedade ideal, responsável pelo coletivo sem o encilhamento de mandantes. Em Barcelona Brasileira já se revelara no autor o domínio da linguagem para obter tensões necessárias à narrativa.

Surpresa terá o leitor no posfácio do editor deste Os Vira-latas da Madrugada, onde é revelado que a primeira versão foi escrita por Adelto (nascido em 1951) quando tinha 18-19 anos e o romance retomado no final dos anos de 1970 para ganhar Menção Honrosa no Prêmio Nacional José Lins do Rego. Uma obra, pois, da juventude do autor e que, sem perder o esperado frescor, revela extraordinária maturidade, capturando o leitor desde as primeiras linhas.

                                             II
Fica bem claro que Adelto Gonçalves elegeu o Paquetá – um bairro no porto de Santos; frequentado e povoado pela “escória” de desencantados – como o cenário sombrio para as histórias que formam o tecido trágico de seu romance, confessando ter guardado no olhar de juventude muito dos seus largos lamacentos e escusas ruelas. Os personagens que neles transitam são esculpidos de tal forma que a um só tempo, tornam-se incômodos e fascinantes, seus “desenlaces” violentos ou torturantes, acumpliciam o leitor ou o colocam em cheque com o sentimento de repulsa ou de ternura diante de seus destinos.

O quase terno encontro de Pingola e Sula, as esculturas de Pai João de Angola e seu jovem seguidor Louva-Deus, o atormentado Plínio, a violência da luta entre Grego e o astucioso Batatinha, a inevitável “traição” de Quirino, personagem que tangencia as tragédias gregas, magnetizam as páginas do romance. A entrega de Marambaia a uma causa (para ele) maior, e o estranho ritual de Irene, a streaper, à luz do palco, trazem ao leitor uma inquietação que mostra ser a escrita de Adelto arquitetada para ir além do “efeito literário”. Pungente sem ser lacrimosa.

                                             III
O ambiente do porto, do bas fond, produz inevitável aproximação às sagas do baiano Jorge Amado em seu Capitães de Areia, Jubiabá e outras epopeias da denúncia social. No entanto, sem questionar o justo pódio de Amado, Adelto Gonçalves revela uma saudável descrença nas soluções simplistas de uma “revolução”, mostrando que a consciência crítica é algo que deve amadurecer dentro de cada um no processo social. A nosso ver, uma forma menos idealizada e mais “terra a terra” de um “caminho possível” para os brasileiros. Personagens quase românticos, dentro do painel manchado pela crueldade, Pingola e Sula – que traz no ventre uma nova vida – partem para um horizonte que lhes caberá construir. Uma esperançosa mensagem.

Por fazer incursões no desenho e na gravura, o resenhista justifica-se: se a aproximação literária com Jorge Amado é admitida, desde as primeiras linhas os quadros descritos com o pulso firme de Adelto lembram o clima das xilogravuras de Goeldi. Mas não há vácuo. Com extraordinária propriedade, as talentosas ilustrações de Ênio Squeff valorizam as páginas do romance. 

No dizer do prefaciador Marcos Faerman (1943-1999), o jovem dissidente Adelto ao lançar seu romance nos anos de 1970, não agradaria aos mandantes da ocasião (o que levou à exclusão do prefácio da edição de 1981, que premiava o autor). Pior para eles que, parece, merecem hoje um merecido desprezo após a passagem sinistra na vida brasileira.

Os Vira-latas da Madrugada veio para ficar em importante lugar na literatura nacional. 

                                                        IV
Adelto Gonçalves, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de inúmeras obras de natureza acadêmica. Também jornalista, é mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela USP e ex-professor titular da Universidade Santa Cecília (Unisanta), no curso de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), no curso de Direito, ambas em Santos-SP. É também professor de Literaturas Portuguesa, Brasileira e Africanas de Expressão Portuguesa. Acaba de lançar também Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015). Hélio Brasil - Brasil

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Helio Brasil, carioca de São Cristóvão, formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, foi professor nas universidades Santa Úrsula, Federal do Rio de Janeiro e Federal Fluminense (UFF).  Contista e ficcionista, publicou O Anjo de bronze e outros contos (Oficina do Livro,1995);); São Cristóvão, memória e esperança (Editora Relume-Dumará, 2004); A última adolescência (Bom Texto, 2004); e Pentagrama acidental (Editora Ponteio, 2014),entre outros.


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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br   Site: www.letraselvagem.com.br

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O romance de Adelto

                                                           I          
O professor Adelto Gonçalves é conhecido e enaltecido pelo exercício da crítica literária, função que desempenha com segurança, simpatia e estilo tanto nos modernos meios de comunicação virtual — importantes sites do País e do exterior, notadamente Portugal — quanto em órgãos da imprensa tradicional. A qualidade, a frequência e a intensidade desse trabalho, uma das mais louváveis exceções à tendência dos grandes periódicos, hoje, de eliminar a resenha crítica regular a cargo de profissionais “do ramo”, competentes e respeitados, fazem, por si sós, benemérita a pena do escritor.
A crítica registra e analisa a produção literária, atuando como fiel e guia do leitor e armazenando, para os historiadores e estudiosos do setor, informações sem as quais a pesquisa seria um perder-se na floresta, cada vez mais densa e intrincada, dos produtos e despejos editoriais. Sem a crítica restam a publicidade e a resenha expositiva, cumpridoras, é certo, de um papel respeitável, mas incapazes, por definição, de ir ao âmago da criação literária, em termos de técnica, de humanismo e de arte.
Além disso, é autor de ensaios literários, históricos e biográficos como, apenas exemplificando, os que dedicou a Bocage, Tomás Antônio Gonzaga e Fernando Pessoa, que lhe aumentaram a notoriedade e lhe granjearam justos prêmios.
Finalmente, sabemo-lo autor de narrativas ficcionais, como os contos de Mariela Morta (sua estréia, em 1977) e o romance Barcelona Brasileira, publicado em Lisboa, em 1999, e em São Paulo, em 2002. Quanto a mim, tomo conhecimento direto desta sua faceta de escritor apenas agora, com a recente publicação, por LetraSelvagem, da segunda edição de Os Vira-Latas da Madrugada. Tendo-o escrito no final da adolescência, refundiu-o em 1977-78, vindo essa versão a merecer destaque, dois anos depois, no Prêmio Nacional José Lins do Rego, da editora José Olympio, que o publicou em 1981.
                                             II
A trama tem base na realidade, passando-se em Santos, num espaço fervilhante de vida e de miséria, entre o porto, o bairro Paquetá e o centro da cidade. Os personagens são — diz em nota o editor, Nicodemos Sena — “ex-sindicalistas, punguistas, jornaleiros, vendedores de jogo do bicho, catadores de restos que caem no transporte antes de chegar aos navios, mendigos, engraxates, cafetinas, cafetões, prostitutas e jovens aprendizes de todo tipo de expediente”; os “vira-latas”, diz o posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes, são os moleques do bairro.
E o tempo? Este, segundo o autor, “não existe, os acontecimentos se confundem, as datas são esquecidas”; não obstante, deve ser afastada a idéia de uma intemporalidade absoluta: a trama se desenvolve às vésperas do golpe militar de 1964, que lhe impõe um corte brusco, sem o recurso usual de um final definitivo.
Conforme detalha Ademir Demarchi nas orelhas, em que lhe traça ágil roteiro, há um plano de fundo fortemente político por trás do enredo, com personagens que rememoram a Coluna Prestes e a era Vargas, tomados em cena “no período pré-golpe”.
Desse grupo humano emergem com força figuras marcantes como o velho Marambaia, seu calejado “mestre”, e o jovem Pingola com sua explorada amante, a jovem prostituta Sula. Marambaia, legendário participante da Coluna, depois homem do mar e, nessa condição, capitão de motins em defesa de direitos dos marujos, é forte presença nessas páginas, com um halo de conselheiro e mentor. Pingola, seu protegido, malandrinho, mas aprendiz de estatuário, leva sua contradição até a página final, quando parece tomar consciência de sua condição subumana e apontar os olhos para uma meta.
O verdadeiro protagonista do romance, assim o sentimos, é a sua humanidade sofrida, recalcada em patamares de primitivismo socioeconômico. O livro estrutura-se em três “confissões”, palavras do eu-narrador que o comentam e definem, cada uma delas introduzindo uma de suas partes, culminando com uma “Última confissão”, sem sequência, espécie de brevíssima coda à guisa de “moral da história”. É interessante registrar como numa dessas confissões, a segunda, o romancista nos adianta uma das vertentes mais notórias do futuro crítico, o ensaio de fulcro histórico, ao discorrer sobre a origem e a etimologia do nome de batismo da região do Paquetá, com base nas anotações de Francisco Martins dos Santos, em sua História de Santos, de 1937; e, naturalmente, ao descrever o Paquetá de “hoje”. 
                                             III
Sobre quem leia o livro salteadamente, randomicamente — eu mesmo às vezes o faço, e isso é possível no caso, pois os capítulos de Os Vira-Latas da Madrugada soem ter um fechamento que lhes permite o folheio aleatório —, impende o risco de acabar pespegando-lhe o rótulo de niilismo, tal o acúmulo de desgraças e humilhações que relata. Se se detiver nas páginas que descrevem a animalesca fúria repressória e torturadora dos beleguins da quartelada, ou nas que pintam a loucura supostamente revolucionária do velho Marambaia, seguida de seu covarde assassínio, tal conclusão parecerá indiscutível: a mensagem seria de treva e desesperança.
Mas o capítulo do enterro do negro artesão, quando Plínio intui que Marambaia “aproveitara o dinheiro do jogo do bicho para dar ao pobre João de Angola um enterro decente”, antecipa conclusão bem diversa. Pois, “então, Plínio sentiu uma ternura imensa por Marambaia; nem tudo no mundo era mesquinharia”; e “de repente, ali, inclinado sobre os joelhos, descobria a solidariedade, a honestidade, a amizade, valores que pareciam mortos”. Outro momento luminoso é o que encerra o volume (antes da já comentada “confissão” final), com Pingola, após o sepultamento de Angola, que lhe ensinara a arte de esculpir em madeira, e o martírio de Marambaia, seu protetor, abraçando a companheira grávida:
“Amanhã, iremos embora desta merda de cais .... Vamos começar de novo. Ele vai precisar de um pai de quem possa ter orgulho”, diz, apontando com os olhos para a sombra do ventre inchado da mulher que se desenha na parede.
Valida-se, assim, em termos de fé — ou pelo menos de esperança — em nossa tumultuosa humanidade, este belo romance de Adelto Gonçalves, válido essencialmente, de resto, pelo vigor da narração e pela compassividade intrínseca do narrador. Anderson Horta - Brasil
  
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Anderson Braga Horta, mineiro de Carangola, poeta, ensaísta e crítico literário, formado em Direito pela Universidade do Brasil-RJ, vive em Brasília desde 1960. Foi diretor legislativo da Câmara dos Deputados e co-fundador da Associação Nacional de Escritores. É membro da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil. Já conquistou 15 prêmios literários. É autor de Proclamações (Brasília, Editora Thesaurus, 2013), entre outros livros de uma vasta obra.


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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$ 35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br  
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Brasil - Relatos da vida dura

Os vira-latas da madrugada se passa às margens do cais santista com personagens que fazem rememorações da época do tenentismo da Coluna Prestes, passam pela Época Vargas e chegam até o período pré-golpe de 1964. Por esse dado já se poderia esperar que o Porto de Santos e sua intensa vida sindical fossem os personagens principais.

Há um forte fundo político neste romance, no entanto o autor coloca o Porto e a vida sindical no entorno e põe à frente da cena personagens que vivem entre o bairro Paquetá e zona de prostituição nas proximidades do Centro. Trata-se de uma região decadente, até hoje, tal como é a vida das pessoas retratadas, que compreendem ex-sindicalistas, moídos no cacete repressivo, punguistas, jornaleiros, vendedores de jogo de bicho, catadores de restos que caem no transporte antes de chegar aos navios, mendigos, engraxates, prostitutas e jovens aprendizes de todo tipo de sobrevivência.

A narração, assim, vai para as rebarbas do Porto e mostra a vida e o que pensam esses personagens. Marambaia destaca-se percorrendo todo o livro. Agora um velho decadente vendedor de apostas do jogo do bicho, que atuara na Coluna Prestes, militante comunista em viagem à União Soviética, sindicalista e ativo grevista, com numerosas prisões e cacetes levados da repressão. Seu percurso dá o tom do romance, indo da juventude encantada com a revolução até acabar-se com a loucura foquista de tacar fogo num bonde e invadir o Paço Municipal, anunciando a Revolução.

À sua volta convive uma penca de marginais, ladrõezinhos que dão título ao livro, os vira-latas da madrugada; gente como o negro artesão Angola, cuja história se desdobra de sua vinda do Nordeste para o Sul, correndo a vida com Peremateu, um ilusionista argentino, com quem aprendeu a fazer esculturas, até que acaba só, em Santos, velho e já ensinando o ofício a um moleque, o Pingola. Angola é um inveterado jogador no bicho e no dia em que, amargurado, joga uma bolada que ganhou na venda de estatuetas, ganha, mas não leva, porque morre atropelado. Seu maior prêmio é dado por Marambaia, como vingança contra a pobreza de todos, que paga o prêmio e compra um túmulo no cemitério do Paquetá, onde era enterrada a gente fina de Santos.

Somam-se a esses tipos também o Grego, um jornaleiro pacato, mas com fama de bom de briga, que acaba esfaqueado por um sujeito de nome Batatinha; a prostituta Sula e seu aprendizado para entrar na prostituição, desejada por Marambaia e Pingola, que afinal acaba com ela diante da loucura e morte de Marambaia; destaca-se também o presidiário Nego Oswaldo, admirado por sua fuga do presídio da ilha Anchieta, que narra espaçadamente para uma plateia no Estrela da Manhã, o bar que todos frequentam e onde trabalha no jogo Marambaia. – lá Nego Oswaldo ocupa o centro das atenções, para onde todos correm para escutá-lo contar sobre como era a vida e as revoltas dos presos na ilha Anchieta.

Em meio a isso, aparecem histórias como a de outro sindicalista, Quirino, que somente descobre que ama Irene, uma prostituta, quando já é tarde demais: enfraquecido pela tuberculose, não resiste a mais uma surra da polícia e morre. Irene faz seu último strip tease sob os efeitos do veneno que tomou, desiludida com a morte do amante.

Greves, revoltas, rebeldias individuais aparecem em lampejos em meio aos relatos da vida dura dessas pessoas que habitam na zona de prostituição. Essa zona aparece na vida das prostitutas, nas descrições dos brilhantes luminosos de neon das boates com nomes em inglês, nas movimentações que precedem os shows para receber os marinheiros estrangeiros de todas as bandeiras e a gente da cidade. Porém os personagens, que vivem no entorno dela e são os assuntos do livro, não entram nesses lugares.

Restam a eles os pequenos roubos, como o que aconteceu a um bazar, condenados à marginalização sem saída num país que não aceita sequer o discurso populista, decaído com Jango e calado com a ditadura nascente. Essa vida é a sua forma de resistência a essa sociedade, daí o epitáfio de Angola, que sintetiza o tom do romance: “Em toda a sua vida nunca defendeu nenhum partido, nenhuma religião, nenhum regime que não fosse o regime da liberdade”. Esse epitáfio se combina com o discurso do louco Teodorico, que sobe num caixote e, sob vaias e tiros de laranja e lixo, discursa o descrédito no humanismo sob o capitalismo e o comunismo. Era o penúltimo delírio concebido por Marambaia.

É uma liberdade anárquica, às vezes animalizada no uso de navalhas e peixeiras para se defender ou se impor nesse meio que coisifica a todos, muito bem exemplificado nos fósforos que um cafetão dos pobres, analfabeto, usa para contar as saídas das putas, fósforos que são os mesmos usados no jogo de porrinha e também nas bombas incendiárias com que Marambaia tenta, sem sucesso, como sua última medida, incendiar esse mundo... Ademir Demarchi – Brasil

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Ademir Demarchi é poeta e crítico, editor da revista Babel Poética, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Apresentação para Os Vira-Latas da Madrugada, publicada nas orelhas do livro.


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Os Vira-Latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman e posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes, ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural LetraSelvagem, 216 págs., 2015, R$ 35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br