Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Portugal - Redescoberto manuscrito com poemas em crioulo português

“The Lisbon Book of Pantuns” é o livro que vai ser publicado pela Casa da Moeda e que tem por base um manuscrito encontrado recentemente no Museu de Arqueologia de Lisboa, documento este que contém 11 poemas. Cinco são de crioulo de base portuguesa e seis em malaio. A investigação contou com a participação de Alan Baxter, especialista em crioulos de base portuguesa, que conta ao Jornal Tribuna de Macau qual a importância deste achado



A descoberta recente no Museu de Arqueologia de Lisboa de um manuscrito de “considerável interesse histórico, linguístico e literário” sobre Batavia do século XVIII, hoje Jacarta, Indonésia, vai resultar na publicação de um livro – “The Lisbon Book of Pantuns” – pela Casa da Moeda de Lisboa. A análise do documento, levada a cabo por cinco investigadores, contou com a participação de Alan Baxter, linguista australiano, especialista em crioulos de base portuguesa, precisamente porque além de poemas malaios, há também poemas em crioulo de base portuguesa.

“É um conjunto de pantuns, são poemas, canções, é um género de poema de quatro linhas, uma tradição malaia. Nesta pequena colectânea, há 11 poemas, seis em malaio e cinco em crioulo de base portuguesa”, explicou Alan Baxter em declarações ao Jornal Tribuna de Macau. Com cerca de 72 páginas, o manuscrito foi analisado, tendo este sido “um trabalho difícil”, uma vez que a ortografia com que se depararam era “complicada”.

O manuscrito, cujo título original é “Panton Malaijoe dan Português”, não era inteiramente desconhecido, lê-se na publicação Arqueólogo Português que faz referência a esta pesquisa. Estava nas mãos do professor Hugo Schuchardt, da Universidade de Graz, “grande linguista do século XIX e especialista em línguas crioulas”, que o deixou como legado a José Leite de Vasconcelos, refere Baxter.

“Mantiveram correspondência durante anos porque tinham muitos aspectos em comum. Foi numa visita que Leite de Vasconcelos fez à Universidade de Graz, que Schuchardt lhe mostrou o manuscrito”, explica. Foi então em 1927 que Leite de Vasconcelos recebeu o documento, mas, porque andava tão embrenhado noutros trabalhos nunca teve tempo para o estudar, refere a publicação.

O etnógrafo e arqueólogo que faleceu aos 82 anos deixou o documento em testamento, ao Museu Nacional de Arqueologia, como parte do seu espólio científico e literário, incluindo manuscritos e correspondência.

Recentemente, a bibliotecária Lívia Cristina Coito e o investigador Ivo Castro encontraram o manuscrito. “Encontraram nos arquivos de Vasconcelos, o livro de pantuns, ainda guardado no próprio envelope que foi enviado a Vasconcelos por um bibliotecário de Graz”, lê-se na publicação.

“Em geral, podemos dizer que o manuscrito contribui bastante para a nossa compreensão da formação dos crioulos do Sudeste Asiático. Por outro lado, dá para perceber o papel que Malaca teve naquela época”, apontou Alan Baxter.

O director do departamento de português da Universidade de São José explicou ainda que todo o manuscrito foi “composto a várias mãos”. “Obviamente foram os mardijkers, os chamados homens livres, ou seja, escravos. Não necessariamente mestiços, mas podiam ser; o mais provável é que fossem ex-escravos de origem do sul da Índia, mas entre eles havia escravos de várias procedências”, prosseguiu.

“Quando os holandeses chegaram ao sul da Índia e Sudeste Asiático, os portugueses já aí estavam bem estabelecidos e a língua já estava ‘crioulizada’ em vários lugares e era comum uma espécie de língua franca baseada em crioulo”. Encontraram o crioulo português e tiveram de utilizar essa língua.

Em Batavia, o crioulo português do século XVII foi, em época, a língua mais falada. Do Sul da Índia, os holandeses levaram escravos da costa e da contracosta para Batavia, que, além de falarem as suas línguas indígenas, falavam o crioulo como língua primária ou secundária. Assim se instalou o crioulo de base portuguesa em Batavia. E foi muito forte”, acrescentou Alan Baxter.

Cantigas de amor e passeios de mulheres

Sobre os poemas em português, Alan Baxter conta que são “quatro cantigas de amor” e um outro poema que se divide em duas partes. “A primeira é sobre um passeio a uma cidade perto de Batavia, um passeio em que vai um grupo de mulheres a uma cidade que fica perto da então Batavia”, explica, acrescentando que são versos com “muito humor”, além do “conteúdo local”, como nomes de frutas que era possível comprar nas feiras daquela cidade. Além disso, “fala também sobre quem vai levar o quê em termos de comida e mencionam comidas típicas locais”.

A segunda parte, por sua vez, “é uma história sobre o rei velho de Banteng, que fica na costa norte da ilha de Java”. “É esse o conteúdo temático dos poemas em crioulo português”.

Por outro lado, no que se refere aos poemas em malaio, além das cantigas de amor, há também “um poema que fala sobre uma rebelião que aconteceu em 1689 na Ilha de Amboina”. “É um longo poema muito interessante”.

“Eu e o professor Hugo Cardoso fizemos uma breve apreciação linguística, um capítulo, comentando o conteúdo linguístico do material”, observou, sobre o papel que teve nesta investigação. “Descobrimos que, em geral, o material manifesta muitos traços tipológicos que são próprios de todos os crioulos do Sul da Índia e do Sudeste Asiático”, acrescentou.

Já na análise em pormenor, chegaram à conclusão de que “o material se parece muito com o crioulo de Malaca, o que era de esperar, porque foi o grande núcleo para a difusão de elementos de língua crioula pelo Sudeste Asiático”.

Segundo adiantou, “todo este material, tem um interesse científico, contribuindo para a possibilidade de fazer comparações com as primeiras fontes, dos séculos XVII, XVIII e XIX”.

E concluiu que “são pequenas peças de um cenário incompleto, mas quantas mais peças melhor dá para comparar e confirmar determinadas características”. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

terça-feira, 31 de março de 2020

Austrália - Texto português do século XVI mostra eficácia da quarentena



Um especialista australiano descobriu num texto português do século XVI uma prova de que a quarentena ou o isolamento podem impedir a globalização de uma doença como a covid-19, que já provocou mais de 30 mil mortos.

O texto português “é um registo antigo de uma doença que passa de animais para humanos, e mostra que a quarentena pode ser eficaz para a travar”, disse à agência Lusa Sanjaya Senanayake, professor de doenças infecciosas na Universidade Nacional da Austrália, em Camberra.

Senanayake referia-se a uma passagem do “Tratado das ilhas Maluco e dos costumes índios e de tudo o mais”, de autor desconhecido, mas geralmente atribuído a António Galvão (c. 1490-1557).

Apelidado de “apóstolo das Molucas”, António Galvão governou a partir de Ternate as chamadas ilhas das Especiarias, na atual Indonésia, entre 1536 e 1540, tendo iniciado o seu mandato 15 anos depois da passagem pela região da expedição de Fernão de Magalhães, já comandada por Juan Sebastián Elcano.

O texto manuscrito foi encontrado no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, e publicado em inglês (“A Treatsie on the Moluccas”, Hubert Jacobs, Jesuit Historical Institute, 1971) e em português contemporâneo (“Tratado das ilhas Molucas”, Luís de Albuquerque e Maria da Graça Pericão, Publicações Alfa, 1989).

A obra versa sobre o governo de António Galvão nas Molucas e nela se narra um surto de uma doença no final de Abril de 1539, que primeiro matou galinhas e depois humanos.

“Com os ventos sul, veio esta enfermidade a Bachão [Bacan]; logo se espalhou por todas as ilhas, começando nas galinhas (…), que de António Galvão se acharam mais de cinquenta ou sessenta mortas, que se empolavam sãs e gordas; e depois lhe adoeceram passante de cento e dez pessoas, entre criados e escravos, que só um não ficou e a mor parte lhe faleceu, afora os portugueses e filhos deles”, lê-se no texto.

“E por toda a terra era este mal tão geral que os não podiam enterrar e o mar era coalhado dos mortos e muitos lugares despovoados; andavam os homens e mulheres como pasmados, dizendo que nunca tal viram nem ouviram aos antepassados”, conta ainda o narrador.

Em Dezembro de 2007, Sanjaya Senanayake e o historiador Brett Baker publicaram um artigo na revista científica The Medical Journal of Australia sobre o texto histórico, numa altura em que o mundo enfrentava a pandemia de gripe A, inicialmente designada como gripe suína.

“A epidemia do século 16 provavelmente não se espalhou devido ao isolamento das ilhas do resto do mundo por causa de padrões comerciais determinados pelo clima [monção]. Isto reforça o valor da quarentena (mesmo não intencional) ou do isolamento como medida de saúde pública. Dada a facilidade de circulação global de pessoas, animais e cargas na era moderna, a sua aplicação será agora um desafio muito maior”, concluíram Senanayake e Baker.

Sanjaya Senanayake admitiu à Lusa, num contacto telefónico em Camberra, que o estudo do texto português “não ajudou necessariamente a combater a gripe suína”.

Mas mostrou que o isolamento intencional das ilhas próximas de Ternate por não haver navegação do comércio das especiarias devido à ausência de vento favorável terá evitado a disseminação de uma infeção que passou de animais para humanos.

A conclusão mantém-se atual, e Sanjaya Senanayake não tem dúvidas sobre a aplicação da quarentena para combater a covid-19, uma doença que se tornou global devido às viagens.

“As três coisas que usamos para combater a pandemia são quarentena, vacinas e medicamentos. São as três grandes ferramentas que temos para a covid-19”, disse Sanjaya Senanayake.

O especialista australiano admitiu que uma vacina para a covid-19 demorará “10 ou 12 meses” e que é impossível saber se haverá medicamentos eficazes em quantidade suficiente para tratar “milhões, dezenas de milhões ou centenas de milhões de pessoas”.

“Mas a quarentena é uma boa maneira de parar ou, pelo menos, de retardar um surto. E foi o que vimos neste texto português: a quarentena não intencional por causa das estações climáticas e a difícil acessibilidade mostram que a quarentena pode ser eficaz”, concluiu.

Sobre a atual pandemia, Sanjaya Senanayake é enfático ao dizer que “ninguém realmente sabe” quando é que poderá ser controlada.

“O surto pode desaparecer ou pode piorar. (…) Até pode ser como a gripe espanhola em 1918, em que houve uma primeira onda que não foi tão má e, pouco tempo depois, houve uma segunda onda que foi muito, muito má”, lembrou, referindo-se à pandemia que matou mais de 50 milhões de pessoas.

“É absolutamente imprevisível. (…) Esperemos que não dure muito”, acrescentou. In “O Século de Joanesburgo” – África do Sul com “Lusa”

sábado, 6 de abril de 2019

Espanha – Divulga manuscrito emblemático da literatura medieval portuguesa


O Ministério da Cultura de Espanha e a Polícia Nacional do país vizinho apresentaram em Madrid uma folha manuscrita restaurada do Livro da Montaria, redigido no século XV, na corte de D. João I de Portugal

Trata-se de um «fragmento» de uma obra «emblemática da literatura medieval portuguesa» e «fundamental» para o estudo da arte de caçar dessa época, explicou o diretor-geral das Belas-Artes espanholas, Román Fernández-Baca.

A «preciosa» folha manuscrita, que tinha sido roubada em 1995 e recuperada em 2014, foi «restaurada, estudada e digitalizada», e foi devolvida esta quinta-feira, 4 de abril, ao Arquivo Provincial de Lugo (Galiza).

O Livro da Montaria original está desde 1600 na biblioteca do colégio da Companhia de Jesus de Monforte de Lemos (concelho de Lugo).

Anteriormente, pensa-se que teria sido doada a essa instituição pelo cardeal Rodrigo de Castor Osório, filho da III Condessa de Lemos, com ligações à família real portuguesa.

Após a expulsão dos jesuítas de Espanha, no século XVIII, a obra desapareceu e foi considerada destruída.

O Livro da Montaria, escrito por iniciativa direta do rei João I, entre 1415 e 1433, descreve ensinamentos práticos sobre a arte da cavalaria e técnicas específicas para caçar diferentes presas, sobretudo o urso e o javali.

O livro só era conhecido através de testemunhos medievais, entre eles as referências feitas pelo filho e sucessor de João I, o rei Duarte, e pelos registos na sua biblioteca.

Até à recuperação deste manuscrito, considerava-se que havia apenas três exemplares do Livro da Montaria, todas elas cópias posteriores ao período medieval.

O mais antigo, datado de 1626 e feito a partir do livro a que pertence o fragmento hoje apresentado, está guardado na Fundação Oriente, em Lisboa.

Os dois posteriores foram elaborados em 1844 e em 1897 e estão, respetivamente, na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

«A montaria era muito importante naquela época, porque era uma forma de preparação para a guerra», explicou Severiano Hernández, subdiretor-geral dos Arquivos Estatais.

A investigação sobre a localização do Livro da Montaria foi iniciada em fevereiro de 2014, quando o Arquivo Provincial de Lugo localizou outros 24 «fragmentos» dessa obra que tinham sido «reutilizados» para proteger vários livros com atos ou escrituras notariais feitas em Monforte de Lemos, no século XVIII.

De acordo com o que foi explicado, sendo as folhas de pergaminho mais resistentes que o papel comum, os «fragmentos» do Livro da Montaria foram utilizados para embrulhar as escrituras notariais.

«A folha recuperada foi devolvida em 2014 pela família de uma pessoa que supostamente tinha subtraído o fragmento» em 1995, disse o comissário chefe da Unidade de Delinquência Especializada e Violenta (UDEV) da Polícia Nacional espanhola, Enrique Juárez.

Escrito entre 1415 e 1433, o livro tem 70 capítulos divididos por três volumes, e estava erradamente classificado como contendo um texto musical. In “Revista Port. Com” - Portugal

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Macau - Professor da UM descobre material histórico relacionado com a história moderna das relações sino-ocidentais

O professor António Saldanha descobriu um Manuscrito datado do século XVI onde são abordados vários tópicos da vida da sociedade chinesa durante a Dinastia Ming



António Saldanha, professor do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau (UM) apresentou recentemente um documento histórico que é considerado um “grande contributo para o estudo da história dos primórdios das relações Sino-Ocidentais”.

De acordo com a UM, o documento encontrado é um manuscrito que discorre detalhadamente sobre vários tópicos da sociedade chinesa da Dinastia Ming, incluindo “o sistema social, legal, judiciário, político e tributário, a organização geográfica e administrativa e as culturas popular e de elite”.

O autor foi um mercador português que passou 13 anos em cativeiro em Cantão, após ser capturado em 1549 pelo general Zhu Wan, superintendente dos assuntos militares responsável pela defesa costeira de Zhejiang e Fujian, durante a erradicação da pirataria na fronteira de Fujian e Guangdong.

O documento escrito em Macau, depois da libertação do seu autor, foi enviado para a Europa onde passou despercebido. Agora pode ser acrescentado à lista dos primeiros seis manuscritos europeus escritos pelos portugueses durante a sua permanência em diferentes partes da China, entre 1520 e 1560. Pensa-se que estes documentos foram as bases da percepção Ocidental da China como “o paradigma de um Império Asiático poderoso, organizado e altamente civilizado”.

António Saldanha é perito nos primórdios da história das relações Sino-Ocidentais, nos Impérios Ibéricos na Ásia e em História de Macau.

O documento foi apresentado na inauguração da quinta conferência de “Macaulogia” intitulada “Macaulogia e o Desenvolvimento de Macau”, presidida pelo director da Faculdade de Ciências Sociais, Hao Yufan. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Galiza - Cincuenta décimas contra don Diego Zernadas


É uma longa carta em verso, sem assinatura e sem data, mas por volta de 1770, com 50 décimas dirigidas contra dom Diego Zernadas, o conhecido Cura de Fruíme, uma das figuras mais sobranceiras da Galiza do Iluminismo. O professor da Faculdade de Filologia e Tradução José A. Fernández Salgado acaba de publicar o livro Cincuenta décimas contra Diego Zernadas, lançado pela Edições Laiovento, que dá a conhecer a edição e estudo de um manuscrito inédito, escrito em galego, que se enquadra dentro do período conhecido como dos Séculos Escuros.

A escassez de textos escritos em galego do século XVIII acrescenta a valia destas “Cincuenta décimas” e obrigam a matizar afirmações sobre o anedótico uso do galego escrito nesta altura. "À vista deles, parece melhor que neste tempo existe uma escrita em galego, embora muitos desses textos não cheguem a imprimir. Daí a importância da publicação deste manuscrito", sublinha Fernández Salgado, professor do Departamento de Filologia Galega e Latina, ao mesmo tempo que sublinha que as “Cincuenta décimas” não só são importantes pela sua datação num tempo de escassa ou nula produção escrita, mas também o tamanho do texto, 500 versos, o texto mais longo deste período após as coplas do Padre Sarmiento.

"A sua extensão, datação, redação íntegra em galego e um registo linguístico cuidado tornam as Cincuenta décimas contra dom Diego Zernadas um texto de referência obrigatória na História da língua e literatura galegas", enfatiza forte o autor na introdução da obra.

O manuscrito que se edita encontra-se num pequeno livro de quatro folhas sem referência no arquivo da Fundação Penzol. "Eu estava a trabalhar nos arquivos da fundação numa pesquisa que nada tinha a ver com isso e ao ver uma caixa com documentos pendentes para catalogar encontrei estas folhas e, é claro, estar em galego, chamou a atenção", explica Fernández Salgado, ao que acrescenta que "estes documentos poderiam pertencer ao fundo de José María Álvarez Blázquez". Encontrou em 2011 e, desde então, aproveitou grande parte do seu tempo livre a trabalhar nele, "sobretudo nos meses de Verão em que diminui o trabalho docente", explica o pesquisador.

À importância da datação e da extensão do manuscrito, o autor do livro acrescenta outros aspectos. Por um lado, não só está redigido totalmente em galego, "outros textos da época podem ter partes em espanhol", mas que as décimas apresentam qualidade linguística, "nelas é usado um registo linguístico culto, enquanto outros escritos da época são textos populares, que imitam o falar do povo", enfatiza Fernández Salgado. Por outro lado, o texto tem qualidade literária e o seu autor, embora desconhecido, é um "cavalheiro" culto que sabe versificar e conhece a arte literária.

A fim de aproximar as “décimas” a vários tipos de destinatários, tanto a pesquisadores como leitores, o livro inclui duas edições do manuscrito: uma quase paleográfica, e outra com o texto atualizado graficamente e com abundantes notas que facilitam a compreensão de uma obra centrada sobretudo na censura contra o Cura de Fruime, focalizada principalmente nos “Petitorios”, que vinham publicando desde 1745, a fim de arrecadar bens para o culto da Virgem das Dores, que Zernadas era um grande devoto. "Pelo que parece o autor das “décimas” estaria ofendido pela crítica ou censura que o padre lhe devia ter feito nalgum deles", explica o autor.

Além disso, o volume inclui capítulos à parte de comentários e conjecturas sobre a datação e autoria do texto e um completo e rigoroso estudo linguístico, tanto gráfica, como gramatical e lexical.

As linhas de pesquisa de José António Fernández Salgado centram-se no estudo da gramática e léxico galegos, na historiografia linguística, na língua literária e na edição de textos, sobretudo do século XIX. Acerca disto, é autor de várias edições e estudos da obra de Marcial Valladares, como a coleção de provérbios (2003), Poesia (2003) e a novela Majina, ou a filha espúrea (2011). Sobre ele publicou também a monografia Marcial Valladares. Biografia de um precursor no Renascença galego (2005) e vários artigos sobre o seu dicionário, a sua gramática e a sua proposta ortográfica.

Fernández Salgado é co-autor também do Nível Base da Língua Galega (1993) e do Dicionário de Dúvidas da Língua Galega (1991). Atualmente é o editor da revista Cumieira. Cadernos de pesquisa da nova Filologia Galega (nº 1, 2016), que publica o Departamento de Filologia Galega e Latina da Universidade de Vigo. In “GCiencia” - Galiza