Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 31 de março de 2020

Austrália - Texto português do século XVI mostra eficácia da quarentena



Um especialista australiano descobriu num texto português do século XVI uma prova de que a quarentena ou o isolamento podem impedir a globalização de uma doença como a covid-19, que já provocou mais de 30 mil mortos.

O texto português “é um registo antigo de uma doença que passa de animais para humanos, e mostra que a quarentena pode ser eficaz para a travar”, disse à agência Lusa Sanjaya Senanayake, professor de doenças infecciosas na Universidade Nacional da Austrália, em Camberra.

Senanayake referia-se a uma passagem do “Tratado das ilhas Maluco e dos costumes índios e de tudo o mais”, de autor desconhecido, mas geralmente atribuído a António Galvão (c. 1490-1557).

Apelidado de “apóstolo das Molucas”, António Galvão governou a partir de Ternate as chamadas ilhas das Especiarias, na atual Indonésia, entre 1536 e 1540, tendo iniciado o seu mandato 15 anos depois da passagem pela região da expedição de Fernão de Magalhães, já comandada por Juan Sebastián Elcano.

O texto manuscrito foi encontrado no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, e publicado em inglês (“A Treatsie on the Moluccas”, Hubert Jacobs, Jesuit Historical Institute, 1971) e em português contemporâneo (“Tratado das ilhas Molucas”, Luís de Albuquerque e Maria da Graça Pericão, Publicações Alfa, 1989).

A obra versa sobre o governo de António Galvão nas Molucas e nela se narra um surto de uma doença no final de Abril de 1539, que primeiro matou galinhas e depois humanos.

“Com os ventos sul, veio esta enfermidade a Bachão [Bacan]; logo se espalhou por todas as ilhas, começando nas galinhas (…), que de António Galvão se acharam mais de cinquenta ou sessenta mortas, que se empolavam sãs e gordas; e depois lhe adoeceram passante de cento e dez pessoas, entre criados e escravos, que só um não ficou e a mor parte lhe faleceu, afora os portugueses e filhos deles”, lê-se no texto.

“E por toda a terra era este mal tão geral que os não podiam enterrar e o mar era coalhado dos mortos e muitos lugares despovoados; andavam os homens e mulheres como pasmados, dizendo que nunca tal viram nem ouviram aos antepassados”, conta ainda o narrador.

Em Dezembro de 2007, Sanjaya Senanayake e o historiador Brett Baker publicaram um artigo na revista científica The Medical Journal of Australia sobre o texto histórico, numa altura em que o mundo enfrentava a pandemia de gripe A, inicialmente designada como gripe suína.

“A epidemia do século 16 provavelmente não se espalhou devido ao isolamento das ilhas do resto do mundo por causa de padrões comerciais determinados pelo clima [monção]. Isto reforça o valor da quarentena (mesmo não intencional) ou do isolamento como medida de saúde pública. Dada a facilidade de circulação global de pessoas, animais e cargas na era moderna, a sua aplicação será agora um desafio muito maior”, concluíram Senanayake e Baker.

Sanjaya Senanayake admitiu à Lusa, num contacto telefónico em Camberra, que o estudo do texto português “não ajudou necessariamente a combater a gripe suína”.

Mas mostrou que o isolamento intencional das ilhas próximas de Ternate por não haver navegação do comércio das especiarias devido à ausência de vento favorável terá evitado a disseminação de uma infeção que passou de animais para humanos.

A conclusão mantém-se atual, e Sanjaya Senanayake não tem dúvidas sobre a aplicação da quarentena para combater a covid-19, uma doença que se tornou global devido às viagens.

“As três coisas que usamos para combater a pandemia são quarentena, vacinas e medicamentos. São as três grandes ferramentas que temos para a covid-19”, disse Sanjaya Senanayake.

O especialista australiano admitiu que uma vacina para a covid-19 demorará “10 ou 12 meses” e que é impossível saber se haverá medicamentos eficazes em quantidade suficiente para tratar “milhões, dezenas de milhões ou centenas de milhões de pessoas”.

“Mas a quarentena é uma boa maneira de parar ou, pelo menos, de retardar um surto. E foi o que vimos neste texto português: a quarentena não intencional por causa das estações climáticas e a difícil acessibilidade mostram que a quarentena pode ser eficaz”, concluiu.

Sobre a atual pandemia, Sanjaya Senanayake é enfático ao dizer que “ninguém realmente sabe” quando é que poderá ser controlada.

“O surto pode desaparecer ou pode piorar. (…) Até pode ser como a gripe espanhola em 1918, em que houve uma primeira onda que não foi tão má e, pouco tempo depois, houve uma segunda onda que foi muito, muito má”, lembrou, referindo-se à pandemia que matou mais de 50 milhões de pessoas.

“É absolutamente imprevisível. (…) Esperemos que não dure muito”, acrescentou. In “O Século de Joanesburgo” – África do Sul com “Lusa”

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Macau - Universidade de Macau cria tecnologia para captar imagens cerebrais em doentes de Alzheimer

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Macau (UM) desenvolveu uma nova ferramenta para captar imagens cerebrais de pacientes com Alzheimer, anunciou ontem a instituição. Trata-se de uma nova tecnologia com recurso a imagens foto acústicas para se detectar a acumulação de cobre no cérebro de pacientes com Alzheimer, algo que segundo estudos científicos está ligado ao desenvolvimento desta doença. A nova ferramenta desenvolvida pela equipa liderada pelo professor assistente Zhang Xuanjun consegue “combinar imagens óticas e imagens de ultra-som numa modalidade híbrida, em que tecido biológico absorve impulsos laser e emite ondas ultra-sónicas fáceis de detectar”, pode ler-se num comunicado da UM.




Os investigadores aplicaram sondas para assegurar a captação das imagens cerebrais, em colaboração com um pesquisador do Instituto de Tecnologia Avançada de Shenzhen, Sheng Zonghai, um professor do Hospital Afiliado da Universidade Médica de Guangdong, Zhang Jingjing, e outro professor da mesma faculdade da UM, Yuan Zhen. Segundo a universidade, espera-se que com estes resultados sejam encontradas “aplicações no diagnóstico de Alzheimer, no rastreio de drogas e na avaliação de tratamentos”. In “Ponto Final” - Macau

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

São Tomé e Príncipe – Cooperação com Portugal no sector da saúde leva doentes a Lisboa

O Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte de Portugal, mais conhecido por Hospital de Santa Maria, é o maior hospital de Portugal. Anualmente recebe dezenas de doentes de São Tomé e Príncipe, que são tratados nas diversas especialidades no âmbito do acordo de cooperação no sector da saúde entre os dois países.

Carlos das Neves Martins, que desde 2013 é Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, em entrevista dada em Lisboa ao Jornal N´dependenxa, explicou que anualmente mais de 6 dezenas de doentes oriundos de São Tomé e Príncipe, são atendidos no Hospital de Santa Maria. «Em 2013 tivemos 69 doentes evacuados e, sobre os anos seguintes, posso-lhe referir que em 2014 foram 83 doentes, em 2015 foram 72 doentes, em 2016 foram 70 doentes, em 2017 foram 60 doentes, enquanto, no corrente ano de 2018, até finais do mês de julho, já tínhamos assistido 48 doentes evacuados do país irmão», afirmou o Presidente do Conselho de Administração do hospital.

O maior hospital de Portugal, diz que continua com portas abertas para receber doentes que São Tomé e Príncipe, ainda não tem capacidade de tratar. Mais ainda, pretende lançar as bases para uma cooperação mais activa no domínio da saúde. «Continuaremos a ser uma porta aberta para todas as evacuações e continuaremos disponíveis para colaborar com a Embaixada e com as Autoridades de São Tomé e Príncipe, não descurando outras ações de cooperação e, sobretudo missões clinicas em São Tomé e Príncipe, ou apoio em formação de quadros da área da saúde nas nossas unidades hospitalares», precisou Carlos das Neves Martins.

São diversos os tipos de patologias, que são diagnosticados nos doentes enviados por São Tomé e Príncipe. «Há um sem-número de doentes de áreas clínicas mais comuns, como a oncologia, a ortopedia, as doenças metabólicas e genéticas, as doenças tropicais e outras com sequelas em consequência de acidentes, decorrentes de um quadro de colaboração e cooperação regular e intenso entre países irmãos», detalhou.

A competência técnica dos profissionais de saúde do Hospital de Santa Maria tem sido fundamental para o sucesso no diagnóstico e tratamento das diversas patologias, que São Tomé e Príncipe ainda não tem meios para diagnosticar e muito menos para tratar. «Temos cumprido de forma irrepreensível o que nos tem sido solicitado e temos motivos de orgulho nos casos de sucesso clínico que têm valido vidas e dado renovada qualidade de vida», pontuou o Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

Segundo Carlos das Neves Martins, o hospital de referência de Portugal, assinou um plano estratégico de cooperação, com 3 países africanos de expressão portuguesa, nomeadamente Angola, Moçambique e Cabo Verde, para o período 2013-2018, envolvendo áreas como a prevenção das doenças e a promoção da saúde, assim como a formação de quadros. «Não se desenvolveu ainda nenhum projeto de trabalho em cooperação com a República Democrática de São Tomé e Príncipe, o que importa analisar e com vista a incluir este país irmão no Plano Estratégico de Cooperação do Centro Hospital Universitário Lisboa Norte para o período 2019-2021, assim hajam propostas e vontades, desde a nossa Direcção Geral da Saúde até às Autoridades São-Tomenses», precisou.

O Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte conta nos seus efectivos com mais de 6300 funcionários. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Internacional - Equipa liderada por português descobriu mecanismo que atrasa Alzheimer



A equipa é liderada pelo investigador Cláudio Gomes do Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas (BioISI) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Os cientistas descobriram um novo mecanismo bioquímico nas células nervosas que retarda a formação dos depósitos de agregados de proteína no cérebro, causadores da doença de Alzheimer.

A descoberta foi publicada no dia 29 de junho na revista científica ‘Science Advances’, da ‘American Association for the Advancement of Science’.

“A proteína S100B acumula-se junto das placas (depósitos) de amilóide nos cérebros com Alzheimer, e o nosso trabalho revela agora que essa ‘coincidência’ tem uma razão de ser, dado que descobrimos que a proteína S100B interage com a proteína beta-amilóide, atrasando a sua agregação”, explica Joana Cristóvão, estudante de doutoramento e primeira autora do estudo.

“Em estudos com culturas de células observamos que a proteína S100B reverte a toxicidade induzida por agregados da proteína beta-amilóide, o que reforça este novo papel na defesa anti agregação”, continua a jovem investigadora.

No seu entender, “esta investigação desvenda novas funções das alarminas S100 que serão comuns entre patologias neurodegenerativas para além da Doença de Alzheimer, o que abre perspetivas sobre a possibilidade de desenvolvimento futuro de terapias direccionadas para estes alvos”.

A doença de Alzheimer afeta milhões de pessoas em todo o mundo e resulta da acumulação de formas tóxicas da proteína beta-amilóide sob a forma de agregados que causam a morte dos neurónios, resultando em demência.

Esta investigação foi conduzida no BioISI – Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Portugal) em colaboração com investigadores do I3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (Portugal), Universidade de Freiburg (Alemanha) e Universidade Técnica de Munique (Alemanha). O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT, Portugal), Fundação Bial (Portugal) e pelo Deutsche Forschungsgemeinschaft (Alemanha). In “Mundo Português” - Portugal

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Moçambique – Malária progride mas com menos casos mortais

A malária contaminou 9.981.277 pessoas em Moçambique, em 2017, o que representa um aumento de 17% em relação ao ano anterior, em que houve 8.520.376 doentes. Contudo, as mortes reduziram 33%, ao caírem de 1.685 para 1.114, principalmente em pacientes que se encontravam internados.

A malária grave, ou seja, aquela cujos enfermos necessitam de internamento reduziram em 11%, ao passar de 80.829 para 72.309 casos, entre os dois períodos em comparação.

De acordo com Nazira Abdula, ministra da Saúde, o grosso de infecções aconteceu nas províncias de Gaza, Inhambane, Manica e Tete.

No país, o paludismo ainda continua a ser um dos maiores problemas de saúde pública e é mais frequente entre os meses de Dezembro a Abril de cada ano, altura em que as unidades sanitárias registam enchentes, sobretudo as pediatrias.

A situação é deveras preocupante, uma vez que, para além de interferir negativamente no desenvolvimento económico e social do país, mantém o ciclo da doença e pobreza devido ao elevado absentismo escolar e laboral e origina, também, a perda de mão-de-obra em vários sectores de trabalho, disse a governante, que falava em Maputo, por ocasião da mobilização de dadores de sangue, inserida nas actividades alusivas ao Dia Mundial de Luta Contra a Malária.

A efeméride é assinalada no dia 25 de Abril de cada ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os outros países do mundo, que estavam próximos de eliminar a doença, registaram igualmente “uma desaceleração na redução” do paludismo.

Em relação a Moçambique, Nazira Abdula disse que existe um compromisso “em fortalecer as intervenções nas áreas preventivas e curativas”, não obstante a persistência de desafios tais como a educação no sentido de a população procurar imediatamente os cuidados de saúde após o reconhecimento dos sinais e sintomas da doença (febre, mal estar geral, dores articulares, vómitos e diarreias ocasionais).

Recorde-se que dormir numa rede mosquiteira impregnada com insecticida de longa duração, aceitar a pulverização da sua casa pelo pessoal de saúde ou outro qualificado para o efeito e eliminar os focos do mosquito Anopheles – fêmea que transmite a doença – é a maneira eficaz de se estar salvo. Emildo Sambo – Moçambique in “A Verdade”

terça-feira, 1 de maio de 2018

São Tomé e Príncipe - Lutar contra o paludismo é uma das condições essenciais para o desenvolvimento

São Tomé – A ministra são-tomense da Saúde, Maria de Jesus Trovoada declarou que a luta contra paludismo constitui a condição essencial para o desenvolvimento sustentável de São-Tomé e Príncipe, sobretudo, na vertente do combate à pobreza.

A governante são-tomense fez esta declaração, em Pantufo, distrito de Mezochi, São-Tomé, no acto central por ocasião do dia mundial de luta contra o Paludismo que se assinalou no arquipélago com várias acitivadades organizadas pelo ministério da saúde.

Na sua intervenção Maria de Jesus Trovoada sublinhou que “a luta contra o paludismo constitui condição essencial para o desenvolvimento nacional e uma vertente importante de luta contra a pobreza”.

Tendo exortado o envolvimento de todos na luta contra esta doença, a ministra da Saúde sustentou que o “completo compromisso” para o seu combate é a “condição primária para o sucesso do processo da nova era de eliminação” do paludismo no território são-tomense.

Depois de declarar que o paludismo deixou de ser a primeira causa de hospitalização e de morte em São-Tomé e Príncipe, a governante citou a evidente satisfação face as crianças com menos de cinco anos e as gravidas que também deixaram de sofrer “frequentemente” desta doença no País.

Disse ainda que a redução significativa de casos de paludismo em São Tomé e Príncipe, nos últimos tempos resulta de “muito empenhamento e abnegação no combate a esta doença” juntamente com os parceiros de desenvolvimento, permitindo um maior “vigor” na continuidade de acções de combate visando a eliminação do paludismo no arquipélago. Ricardo Neto – São Tomé e Príncipe In “STP Press”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Portugal - “Insustentável peso da dúvida”

A perturbação obsessivo-compulsiva é uma doença tão frequente como a asma ou a diabetes, sendo mesmo mais prevalente que a esquizofrenia, mas a autocrítica dos doentes faz com que haja um secretismo que a silencia

Os estudos sobre esta doença psiquiátrica mostram atualmente que a prevalência é bastante maior do que se pensava há poucas décadas, estimando-se que se situe entre um a dois por cento da população geral.

António Ferreira de Macedo, psiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, lembra que a perturbação obsessivo-compulsiva surge em quarto lugar em termos de prevalência entre as doenças psiquiátricas, à frente de “doenças mais conhecidas, como a esquizofrenia”.

O lugar da perturbação obsessiva compulsiva tem sofrido algumas transformações, na medida em que até há pouco tempo era considerada uma perturbação da ansiedade. Mas em 2013 a classificação das doenças mentais sofreu uma evolução e a perturbação obsessiva autonomizou-se.

Sendo muito prevalente é, contudo, uma doença silenciosa e pouco conhecida, apesar de ser até retratada em vários filmes como “Melhor é Impossível” ou “O Aviador”, como recorda o livro “Perturbação Obsessivo-Compulsiva, o insustentável peso da dúvida”.

A obra é dirigida essencialmente aos profissionais de saúde que lidam com questões de saúde mental e tenta compilar os dados mais importantes da doença.

António Ferreira de Macedo, um dos coordenadores do livro, admite que uma das razões para a doença ser silenciosa e pouco conhecida é a perceção que o próprio doente tem da sua patologia.

Enquanto que na esquizofrenia (protótipo da doença mental grave) há sintomas psicóticos que determinam que a pessoa não tem consciência de que está doente, quem sofre de perturbação obsessivo-compulsiva tem “uma crítica muito nítida dos seus sintomas”.

Encaram os sintomas muitas vezes como absurdos e têm vergonha da sua doença, de a comunicar e de pedir ajuda.

“Têm receio que as pessoas os vejam como loucos ou como pessoas perturbadas. Há esse secretismo. O que determina que possa correr um período muito grande, de cinco ou sete anos, entre o início dos sintomas e o pedido de ajuda”, explicou o especialista à agência Lusa.

Caracterizada pela presença de obsessões e/ou compulsões, a doença interfere significativamente no bem-estar e quotidiano do doente.

As obsessões são pensamentos, imagens ou medos de caráter recorrente e que geram grandes níveis de ansiedade, enquanto as compulsões são comportamentos repetitivos e estereotipados, praticados com o intuito de reduzir a ansiedade ou prevenir acontecimentos indesejados.

Podem envolver vários temas mas tipicamente estão relacionados com a sujidade e contaminação e também com a verificação ou contagem. A simetria e a precisão surgem igualmente como compulsões frequentes.

“Quando uma pessoa está 10 horas por dia a tomar banho, pode inclusivamente não conseguir trabalhar. E a compulsão da verificação também pode ser incapacitante”, refere António Ferreira Macedo, dando o exemplo de doentes que verificam continuamente em círculo vicioso as torneiras da água, os interruptores da luz ou os bicos do fogão.

Nos casos mais extremos, as compulsões podem mesmo determinar uma completa incapacidade do doente.

O início da perturbação obsessivo-compulsiva surge geralmente na adolescência ou início da idade adulta e tem uma evolução gradual, que tende a caminhar para uma sobreposição de sintomas.

António Ferreira de Macedo explica que o tratamento farmacológico conjugado com psicoterapia específica é eficaz na maior parte dos casos, havendo outros tratamentos de segunda linha para as situações mais resistentes: a estimulação magnética e a cirurgia que realiza uma estimulação cerebral profunda.

A obra com o subtítulo “Insustentável peso da dúvida” pretende sublinhar um aspeto central da doença: a carga do sofrimento que tem a ver com dúvidas e medos, o que levou alguns autores clássicos a apelidarem a perturbação obsessivo-compulsiva como “a loucura da dúvida”. In “Sapo24” - Portugal com “Lusa”

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Internacional - Idiomas são uma barreira significativa para a ciência mundial, alerta estudo

Em janeiro de 2004, quando alguns vírus perigosos da gripe aviária reapareceram de maneira generalizada no planeta, cientistas chineses descobriram que uma das cepas, a H5N1, havia infectado porcos. Era uma novidade alarmante, porque alguns especialistas acreditam que foram os suínos que serviram de trampolim para o homem na pandemia de gripe de 1918, que matou mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo. Mas poucos estudiosos ficaram sabendo dessa descoberta inquietante, estava em chinês.

Os cientistas do Instituto de Pesquisa Veterinária de Harbin, no nordeste da China, publicaram seus resultados naquele mesmo mês de janeiro em uma revista especializada chinesa. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) só souberam do anúncio mais de seis meses depois, segundo alertou mais tarde a revista Nature. A humanidade esteve sob maior risco por causa das barreiras linguísticas.

“Trata-se de um exemplo clássico”, afirma o biólogo espanhol Juan Pedro González Varo, atualmente na Universidade de Cambridge (Reino Unido). A sua equipa acaba de mostrar que os idiomas continuam sendo “um obstáculo significativo” para a ciência mundial. Os pesquisadores procuraram no Google Académico todos os documentos científicos — estudos, livros, relatórios e teses — relacionados com a preservação do meio ambiente, publicados em 2014 nos 16 principais idiomas do mundo. O resultado foi “bastante surpreendente”, nas suas próprias palavras: dos mais de 75000 documentos, apenas 64% estavam em inglês, a língua franca da ciência. O restante aparecia em espanhol (13%), português (10%), chinês (6%) e francês (3%), principalmente.

“Em tese, concentrar-se apenas na ciência escrita em inglês poderia omitir 36% do conhecimento existente”, advertem os autores no seu estudo, publicado na revista PLOS Biology. E, por outro lado, o desconhecimento do inglês é um impedimento para se ter acesso à ciência de ponta. Uma pesquisa realizada pelos mesmos autores junto de 24 diretores de reservas naturais na Espanha revelou que 54% identificaram o idioma como um obstáculo na hora em empregar os últimos conhecimentos científicos no manejo de seus territórios.

González Varo traz mais exemplos. A Fundação para a Preservação e o Uso Sustentável das Zonas Úmidas, da Argentina, produziu um relatório abrangente sobre o papel das turfeiras na mitigação das mudanças climáticas. Mas, segundo lamenta o biólogo, só está disponível em espanhol. “Essa informação é muito valiosa, mas poderia ser perdida se um cientista escocês, por exemplo, fizer uma compilação das informações disponíveis”.

Outro autor do novo estudo, o japonês Tatsuya Amano, também da Universidade de Cambridge, destaca que o Ministério do Meio Ambiente do Japão possui uma base de dados de biodiversidade com um milhão de registros de espécies, disponível apenas em japonês.

Na opinião de González Varo e seus colegas, “as barreiras linguísticas são um problema particularmente grave nas ciências ambientais”. Os autores alertam para o possível surgimento de preconceitos. Os resultados positivos, como as estratégicas de preservação bem-sucedidas, são publicadas com maior facilidade nas revistas científicas de maior impacto, em inglês. Mas se forem apenas buscados resultados neste idioma, muitos fracassos podem passar despercebidos, por exemplo. Pode haver uma super-representação dos êxitos.

“Queremos enfatizar que as revistas científicas devem envolver-se”, diz o biólogo espanhol, que até 2015 trabalhou na Estação Biológica de Doñana, na Andaluzia. A sua equipa propõe que as revistas especializadas publiquem em seus sítios resumos promocionais traduzidos para os principais idiomas, sobretudo dos artigos com resultados relevantes para a gestão de reservas naturais. “Traduzir custa dinheiro. As revistas podem pedir esse dinheiro aos autores ou oferecer o serviço para eles, se demonstrarem que não têm recursos suficientes”, sugere González Varo. Os autores reconhecem que não se trata de um objetivo fácil, mas atingi-lo trará “amplos benefícios” na hora de enfrentarmos os problemas ambientais. Manuel Ansede – Espanha in “brasil.elpais.com”